Flávio Tambellini, Sandra Kogut

 

Mutum, de Sandra Kogut

 

Imaginemos um filme feito em forma de nuvem; um floco de nuvem branca no céu de desenho ainda mais impreciso porque vista por um menino míope. Tiago, dez anos (Tiago da Silva Mariz, na foto acima) , é não apenas o personagem que Sandra Kogut (na foto no alto, no debate após a projeção na sessão de encerramento da Quinzaine des Réalisateurs de Cannes) foi buscar no texto de Guimarães Rosa. Em Mutum, Tiago é também o ponto de vista de onde a história nos é contada. Os olhos bem abertos do menino míope e a forma suave e imprecisa do floco de nuvem no céu como um modo de figurar a estrutura narrativa do filme.

Em Cannes pelo menos um outro filme procura representar a figura de seu narrador na imagem de uma nuvem que, ao contrário da de Sandra, surge densa e escura no horizonte (ver as fotos abaixo) como anúncio de uma história triste antes que retorne o sol: Stellet Licht (Luz silenciosa) de Carlos Reygadas .

 

Stellet Licht de Carlos Reygadas

 

Stellet Licht, de Carlos Reygadas

 

Uma caderneta de nuvens

 

Bem na metade da história de Mutum, uma nuvem no céu. Céu claro, dia de sol, floco branco, forma imprecisa sobre um fundo azul. Nada no plano anterior prepara, nada no plano seguinte explica o aparecimento da nuvem. O pedaço de nuvem aparece assim como, por exemplo, de quando em quando na tela do cinema uma sombra, um mar agitado ou um espelho, se destacam como modo de traduzir em imagem visível, ainda que fugidia, a estrutura, à idéia que comanda o filme.

 

Numa tela vizinha àquela em que o filme de Sandra Kogut teve sua primeira exibição pública, em maio último, no festival de Cannes, Cristian Mungiu, por exemplo, colava suas personagens diante de um espelho em 4 Luni, 3 saptamini si 2 zile / Quatro meses, três semanas e dois dias; Carlos Reygadas, outro exemplo, cercava sua história de nuvens densas (bem diferentes das de Sandra) em Stellet Licht / Luz silenciosa; Béla Tarr preenchia quase toda a tela com as sombras de seus personagens em A London Férfi / O homem de Londres; e Zhang Yimou brincava com a sombra (talvez porque na China cinema se chamou primeiro de sombra elétrica) de seus personagens no episódio que dirigiu para a coletânea comemorativa dos sessenta anos do festival, Chacun son cinéma.

 

Um filme com o espelho como sua imagem fundadora; outro  com uma nuvem pesada, anunciadora de tempestade, como sua imagem fundadora; e dois outros com a sombra, diferentes sombras, uma densa e ameaçadora a outra ligeira de divertida, como imagem de sua estrutura. 

 

O mais próximo da atmosfera do filme de Sandra Kogut é o de Yimou, En regardant le film / Vendo um filme; porque narra com delicadeza semelhante à de Mutum e porque se desenvolve em torno de um menino mais ou menos assim como o Tiago que Sandra foi apanhar em Guimarães Rosa. O menino de Yimou recebe entusiasmado a chegada do cinema em seu vilarejo cercado de montanhas. Festeja a tela que se levanta na praça, coloca seu banco bem perto dela, acompanha a montagem do projetor, vê de perto os alto-falantes, à espera do filme imita os gestos dos heróis de cinema, estica os braços e joga uma galinha para o alto para se divertir com as sombras na tela durante o teste de luz e foco, empurra com os olhos o sol para trás das montanhas para que a noite venha logo, acompanha na cabine improvisada por trás de um pano as sombras dos projecionistas que jantam e, tudo pronto, na primeira fila, a praça às escuras, esfrega os olhos e cai no sono antes do filme começar.

 

O floco de nuvem no centro da história de Mutum reafirma o que o espectador talvez já tenha percebido pouco antes, mesmo sem se dar conta disto: o filme de Sandra Kogut passa na tela como uma nuvem, bem precisamente como aquela nuvem branca de contorno impreciso, ao mesmo tempo a forma que está ali e forma nenhuma, matéria moldável pelos olhos para a descoberta de mil outras possíveis formas.

 

É mais ou menos assim que o menino Tiago vê o que se passa em torno do pai, da mãe, do tio, da doença do irmão e tudo o mais no Mutum  - porque além de olhar como criança vê como um míope. É mais ou menos assim que o espectador vê o filme, uma vez que é convidado a seguir a cena de um ponto de vista próximo daquele em que se encontra Tiago – ou do ponto de vista em que se encontra um leitor de Guimarães Rosa, especialmente se ele lê inventando imagens em movimento na imaginação.

 

Imaginemos que este filme tirado de um texto de Campo geral tenha numa certa medida incorporado em sua forma parte do método de trabalho do escritor que procurava traduzir em palavras, por meio de anotações (roteiros para seus contos e romances? roteiros como os que fazemos no cinema?) em cadernetas de viagem  o que passava diante de seus olhos: paisagens (“o resto do céu azul aguardando a luz”), pessoas (“meninos e meninas de olhos verdes figo-em-calda”; “a velhinha rezamungando”), movimentos (“o pato em nado quaquaraquante”). Na mesma medida em que o escritor se inspirava em imagens visuais para a invenção de imagens verbais o cinema aqui procura fazer a operação inversa: inspirar-se no texto para retornar/inventar paisagens, pessoas e coisas tomadas para inventar um texto, e neste trabalho construir-se como uma caderneta não muito diferente daquelas usadas pelo escritor: construir-se como anotações visuais da leitura.

 

Filme em forma de nuvem, Mutum se faz também à maneira de uma caderneta. Na tela temos a soma de detalhes observados bem de perto (miopia?) surpreendidos de modo espontâneo pela câmera, colocados um depois do outro como anotações soltas numa caderneta de viagem: um dia de vento forte que derruba tudo no quintal; um um banho de chuveiro nos passarinhos, enchendo a boca de água para cuspir bem suave na gaiola; a brincadeira com lama depois da chuva; o trabalho na roça com o pai; a gargalhada aberta na porta da cozinha (no quintal algum pato quaquaraquante?). Os vários detalhes se relacionam não porque estejam ligados por uma qualquer relação de causa e efeito, mas porque são todos eles vistos por um mesmo anotador atento e delicado.

 

Se, adiante, quando Mutum chegar aos cinemas brasileiros, o espectador se colocar diante da tela à espera de um filme entre uma nuvem branca no céu e uma caderneta de anotações nas mãos, estará no ponto de vista ideal para acompanhar a história do menino Tiago que morava no Mutum, gostava do tio, não gostava quando o pai ficava bravo, sofria quando o pai brigava com a mãe e que queria ensinar o papagaio a dizer o nome do irmão. 

 

> ver também Auto-retrato do eu|outro sobre Um passaporte húngaro, de Sandra Kogut

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