Duas imagens nostálgicas

 

Galina Vishnevskaya: Alexandra de Alexandre Sokurov

 

Nada em Encarnación de Anahí Berneri, em setembro na competição de San Sebastián, diz ao espectador que ele deve ver a já não tão jovem atriz nostálgica do tempo de juventude e sensualidade como uma alegoria da Argentina de hoje. Nada em Alexandra de Alexander Sokurov, em maio na competição de Cannes, diz ao espectador que ele deve ver na avó num acampamento militar na guerra na Chechênia como uma alegoria da Rússia.

 

Encarnación “Ernie” Levier, a vedete esquecida num apartamento decorado com cartazes de cinema entre os planos de escrever um roteiro e fazer uma página web e o sonho de ser convidada para um novo filme, não se reduz a uma representação simbólica da Argentina de agora. Nem Alexandra Nikolaevna, a avó que passeia entre armas obsoletas e pouco eficientes no acampamento militar na Chechênia, é uma representação da Rússia de agora.

 

Apesar disto é bastante provável que num e noutro filme o espectador sinta exatamente isso, Ernie com um certo quê da Argentina depois da crise econômica e Alexandra como uma projeção da Rússia depois do final da URSS.

 

Não é diretamente no desenho das personagens que se constroem estes paralelos, mas no modo de articular as narrativas: na história da vedete sem o brlho e prestígio de outrora que viaja de Buenos Aires para sua cidade natal para a festa de quinze anos da sobrinha; na história da avó que viaja de Moscou até em Grozny, na Chechênia, e se instala num acampamento militar para visitar o neto. Ernie com a família é como a Alexandra com os soldados do acampamento na Chechênia. A vedete na cidade natal para a festa da sobrinha é recebida pela irmã com estranheza idêntica à que cerca a avó no campo de batalha no meio da guerra na Chechênia. Duas imagens: preocupado, a avó parece não se dar conta de que está no meio da guerra, o neto ajuda a avó a fazer uma trança de seus longos cabelos. A sobrinha e a tia ao sol ao lado da piscina do hotel, a adolescente atraída pelo funcionário do hotel e ele interessado em Ernie.

 

Martina Juncadella e Silvia Pérez: Encarnación de Anahí Berneri

 

São histórias contadas por um narrador que vive numa outra dimensão a mesma nostalgia das personagens. A mesma sem ser exatamente a mesma. O narrador do filme, o personagem invisível criado por Sokurov e por Berneri para conduzir o olhar do espectador não sente a Rússia de hoje como Alexandra nem vê a Argentina como Ernie. O que o narrador sente e vê é que tais histórias têm agora, na Argentina e na Rússia, um espectador privilegiado, pronto para vivê-las assim como expressões desiludidas que são. Desiludidas e ao mesmo em meio a um esforço de reinvenção. Alexandra não é a Rússia nem Encarnação a Argentina, mas a avó e a vedete existem com força especial agora e (não apenas, mas especialmente) num espaço social que tenha experimentado (direta ou indiretamente) a sensação de que melhor da vida ficou no passado. Os dois filmes criam uma ficção de vida própria e independente  – independente da hipótese de interpretação que se propõe aqui. Não são o que se diz aqui embora depois de serem o que de verdade são, ou talvez até simultaneamente, são isso também. Nem uma alegoria nem uma metáfora, mas uma organização dramática (talvez se possa dizer assim:) feita não para contar o que é mas para ser contada no que é a Rússia e a Argentina de hoje.

 

Passar por San Sebastian (Encarnación) com um pedaço de Cannes (Alexandra) na memória permite montar um paralelo de modo a que um filme (o de Sokurov) ilumine o outro (de Berneri). Permite uma fusão entre estes dois filmes com os pés no tempo presente e os olhos voltados para o passado, assim como se a avó russa pudesse ser uma personagem interpretada pela tia argentina – ou a Ernie fosse a avó chechena encontrada por Alexandra no instante em que deixa o campo e vai até o que sobrou da cidade destruída pela guerra.    

 

O júri oficial do 55º Festival de San Sebastián / Donostia Zinemaldia premiou como melhor filme A Thousand Years of Good Prayers de Wayne Wang. O prêmio Especial do Júri foi para Buda az sharm foru rikht de Hanna Makhmalbaff. Encarnación de Anahí Berneri recebeu o Prêmio da Crítica.

Blanca Portillo foi a melhor atriz por Siete mesas de billar francés de Gracia Querejeta e Henry O. o melhor ator por A Thousand Years of Good Prayers de Wayne Wang. O prêmio de melhor roteiro, ex-aequo, foi para John Sayles, por Honneydripper, e para Gracia Querejeta e Daniel Planell por Siete mesas de billar francés. O prêmio de fotografia foi para Charlie Lam por Exodus. O prêmio de público foi para Le Scaphandre et le papillon de Julian Schnabel e Caramel de Nadine Labaki.

O prêmio Horizontes foi para El baño del Papa de Enrique Fernandez e Cesar Charlone.

O Cine en Construcción premiou Sol na Neblina de Werner Schumann (Brasil),  Gasolina de Julio Hernández Cordón, (Guatemala), Acné de Federico Velroj (co-produção Uruguai, Argentina, Espanha e México).

A competição de filmes latino-americanos, Horizonte Latinos, a sessão aberta a filmes fora de competição, Zabaltegi. uma retrospectiva Henry King, outra de Philippe Garrel e uma seleção de filmes da Suécia, Noruega, Finlândia, Islândia e Dinamarca, Fiebre helada, completaram o programa de San Sebastián

 

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