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Morte em Veneza

[texto sobre a XLI Mostra Internazionale del Cinema de Veneza, escrito para jornal e publicado em 3 de setembro de 1984]

 

Alain Resnais na Mostra Internazionale del Cinema, Veneza, setembro de 1984

Alain Resnais na Mostra Internazionale del Cinema, Veneza, setembro de 1984

 

Festival de Veneza, 1984: Recebido com muitos aplausos no encontro com a imprensa, meio sem jeito, Alain Resnais procurou se esconder por trás de um sorriso tímido e de um leve aceno com a cabeça para agradecer à recepção dos críticos a L’amour à mort – título para ser entendido como referência a um amor à morte, um amor até à morte, um amor além da morte, um amor mais forte que a morte. O título se refere a todos estes significados, explicou o diretor, mas especialmente ao último deles. Outra vez com um roteiro escrito por Jean Gruault, colaborador de seus dois filmes anteriores, Meu tio da América (Mon Oncle d’Amérique, 1980) e A vida é um romance, (La Vie est un Roman, 1983), Resnais conta uma história de amor simples e simultaneamente complicada, porque não se resume ao que se percebe a partir da ação imediatamente visível.

 

Quatro personagens interpretados por atores que já trabalharam com o diretor e que foram escolhidos para este projeto antes mesmo da definição do roteiro. Foram ecolhidos tão logo a definida da idéia inicial de modo a contribuir para o desenho dos personagens: Fanny Ardant, André Dussolier, Pierre Arditi e Sabine Azema. A história: depois de clinicamente morto por alguns minutos, um homem volta a viver. Sua mulher, desesperada, insiste para que ele faça novos exames médicos e diz que se ele morrer de novo e definitivamente ela se suicidará, porque não pode viver sem ele. A morte e a volta à vida despertam no homem, até então descrente de tudo, uma curiosidade pela possibilidade de existir uma outra vida depois da morte e, ao mesmo tempo, desperta no casal amigo, dois pastores vizinhos, dúvidas sobre a existência de Deus e de uma outra vida depois da morte.

 

Resumida assim a história parece um drama, um questionamento da crença em Deus, mais uma discussão da religiosidade do que uma história de amor. Mas o que de verdade temos em L’amour à mort é uma história de amor como se o filme quisesse sugerir que a única coisa que existe antes, depois e no exato instante da morte é o amor, é o sentimento das pessoas. Uma história de amor assim como aquela que Fritz Lang contou em As três luzes ou pode o amor mais que a morte? | Der Mude Töd (1928). Mas o que importa mesmo, como de hábito nos filmes de Resnais, não é a história mas o modo de contar a história. Enquanto L'amour a mort está na tela, o que mais se vê são os intervalos, os instantes em que na tela não se pasa nada, são os vazios entre os blocos em que efetivamente o filme conta sua história.

 

“São 55 ou 59 intervalos, não me lembro bem”, disse Resnais, 55 ou 59 momentos em que a tela fica inteiramente escura, sem nada, com alguns pontos brancos que dançam no espaço, como flocos de neve, como plumas brancas, como uma qualquer coisa não identificável. Cada um desses interlúdios dura de 15 a 50 segundos, um ou outro deve durar até pouco mais de um minuto e neles não acontece nada mais. Quer dizer, afirmar que não acontece nada não é exato: neles acontece a música de Hans Werner Henze, e a música está no filme como um quinto personagem.O filme nasceu daí, disse Resnais, da idéia de “montar uma história cortada por pausas musicais. Ou, ao contrário, da idéia de montar um espaço musical cortado por pausas visuais”.

 

Pierre Arditi, Sabine Azema: L’amour à mort de Alain Resnais

Pierre Arditi, Sabine Azéma: L’amour à mort de Alain Resnais

 

Jean Gruault disse que recebeu de Resnais apenas o título, a idéia da primeira cena (a morte e a ressurreição do protagonista), o perfil dos personagens e alguns fragmentos do diálogo. O resto foi escrito por ele com a colaboração dos quatro atores. Mas, sublinha, apesar disso “ninguém deve se enganar, fizemos exatamente o que Resnais queria que fizéssemos, porque para mim o filme inteiro já estava na cabeça dele antes que eu começasse a escrevê-lo. Esta primeira cena era um sonho que ele guardara na memória de modo bem preciso, e acho que há muito tempo. E mais, ele sabia que o filme que começávamos a escrever teria apenas quatro personagens os atores que iriam interpretá-los e o título que deveria ter. Sabia mais, que a imagem deveria ser em tela larga. que o vermelho e o preto seriam os tons dominantes e que as cenas seriam separadas por interlúdios musicais”.

Hans Werner Henze (que colaborou com Resnais em Muriel ou le temps d’un retour, 1963) conta que fez a música com toda a liberdade depois de ler o roteiro, de ver uma primeira projeção do filme e de muitas conversas com Resnais:

 

“Fiz a música com toda a liberdade, mas para atender ao que Resnais queria: uma peça para um conjunto de seis músicos com movimentos de uma duração precisa: dez segundos aqui, cinco adiante, quarenta em seguida. E mais, ele me disse que queria a música para ser ouvida sozinha, sem imagens por cima dela.”

 

No debate muitas foram as perguntas que exigiram de Resnais uma explicação sobre os espaços vazios, a tela escura e os pontos brancos por trás da música de Henze, que cortam a narração. Uma figuração da rápida passagem do protagonista pela morte? Uma forma de contar a história do ponto de vista do personagem que morre e ressuscita? Um modo de sugerir que voltamos à vida depois da morte? Para Jean Gruault a música em L‘amour à mort tem função semelhante às intervenções de Henri Laborit em Mon oncle d’Amérique – os comentários de Laborit são tão independentes/dependentes das cenas dramáticas quanto a música de Henze das sistuações vividas pelos personagens neste novo filme.

 

O diretor disse que não pensara em nada disso e que, bem ao contrário do que disseram seus colaboradores, ele era muito menos dono do filme do que parecia. “Cinema se faz em conjunto e o diretor talvez seja o que menos interfere”, disse. Resnais garante que trabalha “como os surrealistas, que se deixavam levar pelo inconsciente, pelo impulso não controlado pela razão”: não procura interpretar o que faz, não saberia como fazê-lo. Fez o filme deste modo para atender ao prazer tantas vezes negado nos filmes: ouvir a música, “a música não só como acompanhamento da cena, mas como presença viva que colabora como um personagem para o filme”. “Sou uma espécie de ateu místico”, continuou, “não penso em mim como um filósofo. Minha cultura é pouca e não creio que seja capaz de compreender o mundo e discutir coisas assim como a vida ou a morte. Pego só algumas formas visíveis, faço um filme, não sei como explicá-lo. Nem sei como falar dele”.

 

Talvez o que mais estimule a conversa sobre este filme seja exatamente este não saber como falar dele. L'amour à mort desperta no espectador a vontade de conversar sobre cinema toda a vida e um pouco mais. E se outra vida não existe dá vontade de inventá-la para não deixar morrer a conversa, pois quando se trata de cinema podemos parafrasear o poeta: mais e mais se falaria não fora para tanto falar tão curta a vida.                                      

 

 

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