Dias de fogo

Maria Auxiliadora

Frei Tito

Maria Auxiliadora e Frei Tito: Brazil, a Report on Torture de Haskel Wexler e Saul Landau

 

Talvez seja necessário durante a projeção de Brasil: um relato de tortura, – realizado em 1971 e exibido pela primeira vez no Brasil em salas de cinema em novembro de 2012 – uma operação dupla: sem sair do cinema ir até o cinema de há quarenta anos. Ver no filme tal como ele aparece agora também como ele apareceu no tempo em que foi realizado.

 

As circunstâncias que cercaram as filmagens são mais ou menos conhecidas: em janeiro de 1971, Haskell Wexler e Saul Landau estavam no Chile para entrevistar o presidente Salvador Allende. Com a chegada de presos políticos brasileiros libertados com o sequestro do embaixador Giovanni Bucher, decidiram dedicar-se a um outro projeto, entre o urgente, o jornalístico e o militante, registrar depoimentos dos que haviam acabado de deixar a prisão antes que eles conseguissem efetivamente sair da prisão, ali, enquanto a brutalidade da tortura continuava a torturar. An Interview with President Allende seria retomado adiante e finalizado também em 1971. Mas ali, naquele instante, o trabalho foi interrompido e Landau e Wexler se dedicaram, quase sem um planejamento preliminar, surpreendidos pelo acontecimento, aos presos políticos brasileiros, poucos dias depois da chegada deles a Santiago.

 

As circunstâncias cinematográficas propriamente ditas talvez sejam menos conhecidas. Brasil: um relato de tortura se insere no quadro de um cinema militante, herança direta do maio de 1968, de certo modo nada muito diferente dos hoje incontáveis registros feitos em câmeras de celulares, reação indignada e urgente para denunciar e reagir ao estado de coisas. Nada muito diferente, mas que se pretendia mais organizado – entre outra razões porque registrar imagens não era tão automatizado e simples, nem tão acessível às gentes quanto hohe. Parte do cinema militante resultava de partidos ou sindicatos, parte de uma vontade como a que gerou na Itália a série de Cinejornais livres (Cinegornali liberi) coordenada por Cesare Zavattini no final da década de 1960. Parte do cinema militante resultou da grande agitação política que se insurgiu contra o poder (não apenas, mas principalmente) na América Latina e na Europa ao longo década seguinte. Parte do espírito militante gerou (ou ao contrário, nasceu dele) um cinema político, um cinema que se mostrava também como um gesto político.

 

Em dezembro de 1970, bem no período do sequestro do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher (ele foi sequestrado em 7 de dezembro e liberado em 16 de janeiro de 1971), foi lançado no Rio o primeiro filme de ficção dirigido por Haskell Wexler Dias de fogo (Medium Cool, 1969). Ele era então conhecido do espectador brasileiro especialmente pela fotografia de América América (de Elia Kazan, 1963) e de Quem tem medo de Virginia Wolf (Mike Nichols, 1963) – e ainda por ter fotografado uma produção norte-americana ambientada no Brasil, O pescador e sua alma (The Fisherman and His Soul, de Charles Guggenheim, 1961). Em janeiro de 1971, no Chile com os presos políticos brasileiros recém-chegados (as filmagens começaram no dia 20 de janeiro), Wexler trazia na memória muito provavelmente a lembrança do filme realizado pouco antes (Interview with My Lay Veterans, codireção de Joseph Strick, Oscar de documentário 1970) e a questão que discute em Medium Cool, a responsabilidade do fotógrafo frente à realidade que fotografa.

 

Imaginemos, Brasil: um relato de tortura pode ter partido de um impulso semelhante ao que leva o protagonista de Medium Cool, fotógrafo de um noticiário de televisão, a dizer que é “impossível esconder-se na técnica, o engajamento é inevitável” e se perguntar “até quando as pessoas continuarão a se afastar de suas responsabilidades perante outras pessoas em nome do perfeito desempenho de uma função técnica qualquer?”

Os sinais desta vontade se encontram (visíveis num segundo plano) num certo jeito de filmar quase assim como se não se soubesse como filmar o que está diante da câmera, num certo jeito de falar como se quem fala não soubesse falar.

Como filmar o impossível? Como dizer o indizível?

Como explicar que a luz, o quadro e o foco certos pareçam um desacerto?

Como evitar que o relato indignado e denso seja cortado por um riso (nervoso? trágico?) de todo inesperado, adiante?

Como, a não ser pelo fato de que a responsabilidade perante as pessoas se sobrepõe, aqui, à boa execução técnica?

Como, a não ser pelo fato de que o cinema, aqui, se fazia como expressão urgente e inacabada?

Dias de fogo: o título brasileiro de Medium Cool (embora não tenha sido essa sua intenção) traduz o cotidiano do cinema do começo da década de 1970

Discurso ainda não de todo articulado, o cinema militante é pouco mais que uma ideia que vai sendo pensada em voz alta em busca da ordem em que poderá finalmente se expressar. E assim como o cinema de um modo geral aprendeu muito com os filmes militantes, sem repetir as soluções propostas por ele, mas inventando novas formas a partir das propostas deles, talvez seja possível compreender melhor o que vivemos agora por meio de uma operação dupla que cole sobre o presente, como numa fusão, a imagem do passado recente.

Bem entendido, em primeiro plano, o que se impõe mesmo é o que se relata. Ou, talvez, o que se impõe hoje em especial é ver, por exemplo, os relatos de Frei Tito e de Maria Auxiliadora com o conhecimento de suas mortes trágicas poucos anos depois – ambos se suicidaram durante o exílio na Europa. Mas empreender esta operação dupla, ver na imagem de hoje, que nos chega como um relato retrospectivo,  aquela do momento em que se projetou pela primeira vez, longe de nós, como denúncia, como indignação, como revolta diante da tortura aos presos, revela que, numa outra dimensão, continuamos a enfrentar uma semelhante dificuldade de relatar ou enfrentar o relato da brutalidade da tortura.

 

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