O cinema pinta,
a pintura filma

 

Na maior parte do tempo, em O mistério Picasso (Le mystère Picasso de Henri-Georges Clouzot, 1955) nem mesmo a mão do artista aparece (como em La belle noiseuse de Jacques Rivette ou como em El sol del membrillo de Víctor Erice): o desenho parece fazer-se a si próprio na tela.


O pintor trabalha por trás de um vidro meio transparente meio opaco, iluminado o suficiente para deixar passar as formas e cores pintadas nele. Podemos ver a tinta aplicada do outro lado, mas não transparente o suficiente para deixar ver a mão, o pincel, o pintor. O espectador percebe apenas o traço ou a mancha colorida que tomam um rumo aparentemente sem sentido até o instante em que a forma se completa.

No exemplo ao lado: impossível adivinhar a figura que se formará quando surge o primeiro traço azul, correndo de baixo para cima na tela. Nem mesmo quando o traço azul dobra para a esquerda. Menos ainda quando por baixo dele surge uma linha esverdeada. Impossível até então adivinhar o que será a forma acabada. Picasso não apenas pintou diante da câmera: pintou cinematograficamente, pintou para a câmera, fez cinema com a pintura, ou vice-versa, pintura com o cinema.

O cinema aqui permanece imóvel de olhos bem abertos para ver o que o pintor faz, como ele inventa a forma pouco a pouco. Conduz o espectador pela curiosidade: ele é levado a seguir a elaboração de uma forma assim como durante a projeção de um filme vê um drama, ou comédia, ou tragédia, se formar gradativamente diante de seus olhos.

Picasso aqui vê a câmera do outro lado do vidro semi-transparente assim como em seu estúdio o artista vê o seu modelo – como desafio, inspiração, convite para inventar uma forma que represente o modelo. Enquanto o cinema pensa que fima o pintor, o pintor pinta o cinema.

Talvez este filme em que o espectador vê o artista diante de seu modelo e vê um quadro se fazer diante da câmera, possa ser colocado ao lado de um outro em que o diretor não mostra o processo de invenção de uma pintura, mas sim um processo de invenção cinematográfico que toma a pintura como modelo: Paixão (Passion, de Jean Luc Godard, 1982).

 

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Le mystère Picasso, de Henri-Georges Clouzot

 

Le mystère Picasso, de Henri-Georges Clouzot

 

Le mystère Picasso, de Henri-Georges Clouzot

 

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Le mystère Picasso, de Henri-Georges Clouzot

 

 

 

Le mystère Picasso, de Henri-Georges Clouzot

 

Le mystère Picasso, de Henri-Georges Clouzot

 

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