Walter Salles

 

Ermano Olmi

 

Walter Salles, Ermano Olmi

 

Walter Salles, Ermano Olmi

 

Walter Salles, Ermano Olmi

 

O encontro e o abraço se deu no final da mesa convocada por Martin Scorsese para anunciar a criação da World Cinema Foundation, fundação dedicada ao restauro de filmes, e para apresentar os três títulos exibidos no programa Cannes Classics graças a uma restauração digital realizada com o apoio da fundação: o rumeno Padurea spanzuratilor (A floresta dos enforcados) de Liviu Ciulei (1964); o marroquino Transes, de Ahmed el Maanouni (1981); e o brasileiro Limite de Mário Peixoto (1930).

Na mesa, terminados os debates – com a participação de Scorsese, Souleimane Cisse, Ahmed el Maanouni, Fatih Akin, Wong Kar Wai e Stephen Frears – Ermano Olmi e Walter Salles, como velhos amigos de cinema que se encontram, trocaram umas poucas palavras e se abraçaram antes de se despedirem.

A World Cinema Foundation é uma expansão do trabalho iniciado por Martin Scorsese há 17 anos para a preservação de filmes norte-americanos, a The Film Foundation. A nova fundação, disse Scorsese na abertura do encontro em Cannes, tem como objetivo “ajudar cinematecas de todos os cantos do mundo a preservar suas obras primas cinematográficas com recursos e com os meios técnicos necessários ao restauro de filmes”. No conselho da World Film Foundation estão, além de Walter Salles e Ermanno Olmi, Fatih Akin, Wim Wenders, Souleymane Cisse, Stephen Frears, Abbas Kiarostami, Alejando Iñarritu, Christi Puiu, Guillermo del Toro, Abderrahmane Sissako, Elia Suleiman, Bertrand Tavernier, Wong Kar Wai .

Para os 60 anos de Cannes,

Walter Salles mandou uma mensagem de Miguel Pereira

e uma carta para V., que não está nem aí pra isso.

 

Em duas ocasiões anteriores (para comemorar o centenário do Cinematógrafo, em 1995, e para comemorar sua edição número 50, em 1997), Cannes fez o que voltou a fazer este ano para assinalar o festival número 60: produziu filmezinhos de dois a três minutos - os Prelúdios / Preludes, - para exibir antes dos filmes de longa-metragem do programa oficial.

 

Em 1995, montagem de fragmentos de filmes que marcaram os primeiros cem anos do cinema; em 1997, pedaços de filmes que marcaram os cinqüenta anos da mostra.

 

Agora, episódios reunidos num longa-metragem, O cinema de cada um / Chacun son cinéma “para comemorar 60 anos de criação com criação”, resumiu Gilles Jacob, coordenador do projeto, 33 filmezinhos de três minutos cada realizados por 35 diretores – Abbas Kiarostami, Aki Kaurismaki, Alejandro Gonzalez Iñarritu, Amos Gitai, Andrei Konchalovsky, Atom Egoyan, Bille August, Chen Kaige, Claude Lelouch, David Cronenberg, Elia Suleiman, Ethan e Joel Coen, Gus Van Sant, Hou Hsiao Hsien, Jane Campion, Jean-Pierre e Luc Dardenne, Ken Loach, Lars von Trier, Manoel de Oliveira, Michael Cimino, Nanni Moretti, Olivier Assayas, Raul Ruiz, Raymond Depardon, Roman Polanski, Takeshi Kitano, Theo Angelopoulos, Tsai Ming-Liang, Wim Wenders, Wong Kar Wai, Youssef Chahine, Zhang Yimou e Walter Salles.

 

Os Prelúdios produzidos na década de 1990 eram pequeninos programas especialmente concebidos para uma platéia de festival de cinema, uma espécie de jogo de memória: as breves cenas selecionadas pela direção do festival eram agrupadas em torno de temas mais ou menos abertos: Água; Mãos (destaque para as imagens do Pickpocket de Robert Bresson); Equitação; Listras; Cabelos; Leilões; Gatos; Zôo; e ainda, entre outros:

Problemas de língua, cenas em que os personagens falam com acentuado sotaque uma língua estrangeira;

Árvores, com imagens como aquela em que o tio louco do Amarcord de Fellini grita do alto de uma árvore frondosa: “voglio una donna”;

Névoa, com imagens do Deserto vermelho de Antonioni, King Kong de Cooper e Schoedsack, e Paisagem na neblina de Angelopoulos.

Sapateado, com cenas de Fred Astaire e de Gene Kelly.

Mozart, com imagens sublinhadas pelas música do compositor, entre elas a de Pai patrão dos irmãos Taviani  – o pai joga o rádio no tanque cheio de d‘água para não continuar a ouvir Mozart e o filho continua a assobiar a música.

Chapéus, com um trecho de Diabo a quatro de Leo McCarey em que Chico e Harpo Marx trocam todo o tempo de chapéu numa dança surrealista.

A impossibilidade de se despir, que reproduz inteiro o filme de mesmo nome de Georges Méliès (Le déshabillage impossible, 1900: o personagem entra no quarto para dormir e quanto mais roupa tira mais roupa surge do nada para vesti-lo de novo) ao lado de um fragmento de Um convidado bem trapalhão de Blake Edwards em que o personagem de Peter Sellers tenta inutilmente tirar a gravata.

Talvez o mais divertido de todos, o mais vivo na memória é o que tem como título Mamãe eu quero, assim mesmo, em português, e mostra sucessivamente Carmen Miranda (numa cena de Serenata tropical de Irving Cummings), Mickey Rooney (em fragmento em que imita Carmen em Calouros na Broadway de Busby Berkeley), Jerry Lewis (numa imitação de Carmen em Morrendo de medo, de George Marshall), um desenho animado de Tex Avery (Magical Maestro, também com uma imitação de Carmen) e Groucho Marx ao piano: todos cantam “mamãe eu quero, mamãe eu quero mamar”.

Para a comemoração dos 60 anos do festival, na verdade, duas séries de prelúdios.
A primeira selecionou trechos de filmes com cenas que se passam dentro de uma sala de cinema. Antes de Quatro meses, três semanas e dois dias / 4 Luni, 3 saptamini si 2 zile de Cristian Mungiu, por exemplo, um trecho de Lolita, de Stanley Kubrick, com James Mason, Shelley Winters e Sue Lyon no escuro do cinema, Lolita assustada com o filme de terror que se exibe pega a mão do professor Humbert que acabara de recusar a mão igualmente assustada de Charlotte; antes de Zodiac de David Fincher, o trecho de Sherlock Junior em que Buster Keaton, na cabine de projeção com a namorada, imita o que vê no filme para roubar-lhe um beijo; como acompanhamento de outros filmes, cenas de Roma de Fellini, Sabotage (que no Brasil foi exibido com o título O marido era o culpado) de Hitchcock, Cinema Paradiso de Scola, Brief encounter de David Lean.

A segunda série, depois de exibir os 33 prelúdios reunidos no longa-metragem Chacun son cinema, selecionou alguns deles para reapresentação na abertura dos programas oficiais. E incluiu ainda, como prelúdio à apresentação de Une vieille maîtresse / Amante antiga, de Catherine Breillart, um segundo filmezinho dirigido por Walter Salles: Carta a V.


A primeira mensagem de Walter, A 8.944 quilômetros de Cannes, se compõe, a rigor, de um único plano: dois cantadores de emboladas, Castanha e Caju, na porta de um cinema, Studio 33. O filmezinho tem outras imagens – um pedaço de rua de Miguel Pereira, os dois cantadores parados diante da câmera; mas a mensagem propriamente dita está no plano dos cantadores na porta do cinema que exibe Os 400 golpes. Caju protesta, “e agora inventaram de botar filme pornô na cidade?”, Castanha corrige, “deixa de ser besta, isso é filme premiado”, Caju insiste, “premiado onde rapaz?”, e a resposta, “premiado em Cannes, isso é filme francês otário”, não convence: “E desde quando você entende de francês?”. Castanha explica: “desde que eu estive em Cannes! Presta atenção, meu Caju”, e começa a contar/cantar Cannes. Diz que viu uma “tela de cinema grande qual o Maracanã” (Caju acha que é mentira, ele nunca esteve em Cannes, “estava era aqui, em cana“; nem Cannes nem francês, “estava em Pernambuco comendo uma vez por mês”). Castanha diz mais, que viu nas ruas francês e americano, alemão e japonês, coreano e caboverdeano; diz que viu filmes como A aventura, Doce vida, Pai patrão, Paris Texas e O pagador de promessas (Caju sempre descrente, diz que prefere ver filmes do mundo inteiro na televisão sem pagar nem um tostão). Terminada a cantoria os dois saem de quadro mas a conversa continua sobre o plano vazio na porta do cinema. Castanha confessa que nunca esteve “nesta tal de Cannes” (para surpresa de Caju, que “já estava até acreditando”). Nunca esteve lá, viu tudo na internet.

[Esta foi a segunda vez que o festival recebeu uma mensagem do Brasil pelas mãos (marcando o ritmo da cantoria no pandeiro) de Castanha e Caju. A anterior, Uma pequena mensagem do Brasil, ou a saga de Castanha e Caju contra o encouraçado Titanic, foi enviada por Daniela Thomas e Walter Salles, em 2002, parte de um conjunto de dez filmes curtos feitos em torno de uma questão proposta pela Quinzena dos Realizadores, a diversidade cinematográfica diante da globalização. Antes da primeira imagem desta primeira mensagem, uma explicação sobre um fundo negro (“A embolada vem da literatura de cordel, não é?, e a embolada é um trocadilho de palavras, de improvisação. E é por isso que o pessoal do rap considera a embolada o pai e a mãe do rap”). Depois, os cantadores na porta do mesmo cinema Studio 33 (o filme que se exibe então é Titanic) cantando: “Vamos minha gente afundar o Titanic que ele ganhou dinheiro de tanto fazer trambique”. As duas mensagens, a de 2002 e a de agora, terminam da mesma maneira, com uma pergunta e uma pronta resposta de Castanha e Caju: “E a realidade? É uma só”.]

A outra mensagem que Walter Salles enviou aos 60 anos do festival reúne fragmentos de Paris Texas (Jane num filmezinho super 8 feito por Travis), de Vidas secas (o menino mais novo caminha ao lado do pai), de Limite e de O grande ditador ao lado de imagens do menino V., numa sala de cinema, olhos arregalados diante de Chaplin brincando com a grande bola do globo terrestre. Tais imagens são sublinhadas por um texto sussurrado pelo diretor. A mensagem para o festival é principalmente uma carta para V., para perguntar-se: será que um dia ele também vai se encantar com o cinema?

A carta diz o seguinte:   

 
“O festival de Cannes está fazendo 60 anos.
Você está fazendo seis meses e, é claro, você não está nem aí pra isso. Você está descobrindo outras coisas, a texturas dos objetos, o salgado e doce, o claro e o escuro.
Daqui a pouco você vai descobrir o tempo, e com ele a memória.
Qual a primeira imagem que você vai lembrar?
O que é que o cinema vai te ensinar sobre o mundo?
Olha, o nome deste filme é Vidas secas. Será que filmes como esse vão te ajudar a conhecer melhor o teu país?
Será que o cinema vai te mostrar que por mais que a gente cresça o mundo é sempre bem maior que a gente?
Será que um dia você também vai se encantar com o cinema?
Este filme, Limite, foi feito por um jovem de 21 anos em 1931. Olha quanta liberdade.
Aos 21 anos você já vai ter se apaixonado numa sala de cinema?
Sim ou não?
Olha, eu pensei em escolher um filme para você ver na tela de cinema antes de qualquer outro. E eu escolhi esse.”


A imagem escolhida é a de Chaplin como o grande ditador jogando bola com o mundo.

 

• ver também:

Uma caderneta de nuvens, sobre Mutum, de Sandra Kogut;

Cinema de poesia, sobre A via láctea, de Lina Chamie;

A inocência do culpado sobre Zodiac, de David Fincher, No Country for Old Men, de Ethan e Joel Coen, e Paranoid Park, de Gus van Sant, filmes exibidos em Cannes 2007;

• Memória fotográfica.

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