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O sétimo selo, de Ingmar Bergman

O sétimo selo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O sétimo selo: Anders Ek

 

Gritos e sussurros : Anders Ek

 

Deus e o diabo na terra dos morangos

[Nota crítica escrita originalmente para jornal e publicada em novembro de 1974, no lançamento comercial de O sétimo selo no Rio de Janeiro . Ver também outras páginas sobre Ingmar Bergman, O fingidor; Navegar é preciso; Naufragar é preciso; Da cor à cor inexistente Música para os olhos; e O pesadelo do artista]

 

Num palco improvisado sobre uma carroça, dois atores ambulantes cantam para um pequeno público que assiste à representação entre risos e comentários engraçados. Subitamente tudo é interrompido por
gritos de dor misturados às fortes vozes de um coro. Os rostos dos atores, até então alegres e descontraídos, mostram agora uma expressão de dor e espanto, enquanto eles olham para uma procissão que se aproxima da carroça. São homens, mulheres e crianças vestidos de negro, com capuzes sobre a cabeça. Eles se martirizam com chicotes, gritam com o rosto voltado para os céus, cantam e se atiram de joelhos ao chão para pedir perdão a Deus. Um monge carrega uma enorme cruz de madeira, outro carrega uma imagem de Cristo na cruz, outros trazem um turíbulo e espalham a fumaça de incenso. Os atores, e também o pequeno público diante da carroça (no meio deles o cavaleiro Antonius Block e seu escudeiro Jons) permanecem imóveis e sem nada dizer, como que agredidos pelo inesperado aparecimento da procissão.

 

Algum tempo depois de ter filmado esta cena em O sétimo selo (Det sjunde inseglet, 1956) Ingmar Bergman afirmou que a arte não tem importância. Não tem importância nessa época em que as pessoas vivem agredidas pelo horror e pela violência do cotidiano. Não tem importância porque muitas vezes o artista realmente consciente de seu papel no mundo tem apenas uma atitude digna: permanecer em silêncio. Algum tempo depois de ter filmado o plano dos artistas paralisados e agredidos pelo aparecimento da procissão, Bergman realizou Persona (1964. O filme foi exibido comercialmente no Brasil com o título Quando duas mulheres pecam). Em Persona uma atriz perde a voz durante uma interpretação e se recusa a voltar a falar, para “se manter fiel a si mesma e evitar as brechas por onde a realidade penetra”.

 

Os atores e o pequeno público imóveis e calados, a câmera se aproxima em primeiro plano da figura de um monge na procissão. Olhar severo e a boca contraída num meio termo entre um sorriso de ironia e um quase choro de raiva e sofrimento. Quando começa a falar, ora ele se dirige a um dos personagens em cena, ora para a câmera, mais exatamente, para o espectador. Todos para ele parecem gado a caminho do matadouro. “Sabem que esta pode ser a sua última hora de vida? A morte está ao lado de vocês”. A imagem do rosto do monge é por vezes interrompida para vermos os olhares assustados das pessoas que o escutam.

 

“Vocês sabem, seus tolos e insensatos, que todos iremos morrer hoje, ou amanhã, ou no dia seguinte porque fomos condenados? Ouviram o que eu disse? Ouviram a palavra? Vocês foram todos condenados, condenados!”

 

Uma breve pausa. O monge olha para o céu e continua, num tom menos irritado e mais sofrido:

 

“Deus tenha piedade de nós em nossa humilhação. Não volte a sua face para nós com repugnância e desprezo. Seja piedoso conosco, pelo amor de seu filho Jesus Cristo.”

[Algum tempo depois de filmar esta cena Bergman iria retomar o mesmo ator, Anders Ek, para interpretar o padre de Gritos e sussurros (Viskningar och rop., 1972) e voltar a esta mesmo discurso  – os homens condenados por Deus à morte, depois de um longo sofrimento –  e a uma espécie de anti-oração, sofrida e irritada contra a falta de sentido da vida, ou em outras palavras: contra a indiferença e o silêncio de Deus.]

 

No centro de O sétimo selo se encontra uma conversa em torno de Deus, mas não se trata propriamente de uma discussão religiosa. Deus importa aqui a partir da definição do cavaleiro Antonius Block no começo do filme, no primeiro encontro com a Morte: “de nosso medo fizemos uma imagem, e a esta imagem chamamos Deus” – o pai supremo que não cessa de punir seus filhos, de acordo com a ameaça do monge e a observação de Jons, o escudeiro de Block: “nossa vida era muito boa, estávamos muito satisfeitos. O Senhor decidiu então nos punir com a peste”. Deus como um personagem invisível, sua ausência como uma espécie de comprovação da falta de sentido da vida, “uma irrealidade insensata, que se transforma ao final na realidade sólida e tocável de um cadáver”, uma longa dor sem alívio, “pois na escuridão em que estamos não existe ninguém para ouvir nossos gritos e se sensibilizar com nossos sofrimentos”.

 

A cena dos artistas interrompidos pela procissão é quase um modo de reencenar a situação que abre o filme, o encontro do cavaleiro Block com a morte (Quem é você? A morte. Você veio para me levar? Tenho caminhado a seu lado por muito tempo. Está preparado? Meu corpo está tremendo, mas não estou preparado. Não se sinta envergonhado.) para um jogo de xadrez  em que a morte (Muito apropriado, não acha?) joga com as pretas. Deus como uma espécie de juiz que impõe em silêncio um jogo de xadrez em que o jogador com as brancas consegue, quando muito, retardar a derrota – de acordo com as regras, quem joga com as peças brancas perde.

 

“É um danado de um discurso extravagante sobre o dia do juízo final. Este é o alimento do cérebro das gentes modernas? Eles esperam que nós tomemos isto a sério?” – comenta o escudeiro Jöns tão longo o monge termina o sermão ameaçador com um sinal da cruz e solta a voz num novo canto religioso para comandar os outros monges e os peregrinos a seguir a procissão. Jöns comenta para o cavaleiro Block, mas este permanece em silêncio enquanto o escudeiro continua a protestar, a dizer que seu estômago é o seu mundo, sua cabeça a sua eternidade e suas mãos dois magníficos sóis. “Minhas pernas são dois pêndulos do tempo e meus pés sujos dois esplêndidos pontos de partida para minha filosofia”.

 

Esta conversa em que as perguntas e afirmações sinceras de um dos personagens esbarram no silêncio ou indiferença do outro, (que muitas vezes nem mesmo mostra sua face na imagem, o que fala está sozinho) está presente em todos os filmes de Bergman. E' uma imagem perseguida a todo instante como se o diretor tivesse encontrado nela uma correspondente ideal da condição humana. Perguntar, falar, mesmo quando as respostas não são obtidas, mesmo quando se sabe que as respostas não virão, mesmo quando se sabe que perguntar não faz sentido.

 

Algumas vezes a idéia salta à vista, como na afirmação do velho Isaak Borg de Morangos silvestres (“aos 76 anos estou muito, velho para mentir a mim mesmo ou para os outros. Às perguntas, respondo com o silêncio”) ou nos longos monólogos entre a enfermeira e a atriz de Persona, ou naqueles outros entre Karin e Maria em Gritos e sussurros, ou entre Ester e o velho do hotel de O silêncio. Algumas vezes esta idéia de um diálogo impossível é o tema central do filme, é o que impulsiona os personagens em geral, como acontece em O silêncio: duas mulheres e uma criança chegam a uma cidade desconhecida onde se fala uma língua incompreensível; ligeiros toques  de comunicação se estabelecem, através de uma ou outra palavra (Kasi: mão; Hadjek: alma) e da música de Johan Sebastian Bach. Nesta cidade, enquanto brinca com fantoches o menino Johan afirma que os bonecos falam uma língua indecifrável porque estão com medo, e Ana diz para o amante que eles se sentem bem porque um não entende o que o outro fala.

 

O mesmo se encontra aqui em O sétimo selo, e não apenas de modo direto, como no sermão do monge ou no comentário de Jöns. Aqui a idéia de um monólogo respondido com o silêncio comanda todas as ações. O monge, os peregrinos, e todos os outros personagens se dirigem a Deus, que, personagem ausente, fora de quadro, não responde. “Ele não existe”, afirma o escudeiro Jöns, espécie de consciência crítica do cavaleiro Antonius Block, “o que existe entre nós é o diabo”, e já que é assim, o cavaleiro procura se aproximar da jovem possuída pelo demônio. Retarda um pouco a cerimônia de exorcismo em que ela será queimada viva sob a acusação de ter provocado a peste e pergunta como encontrar o diabo: “Quero perguntar ao diabo sobre Deus. Pelo menos ele, já que ninguém mais sabe, poderá dizer-me alguma coisa”.

 

Visto agora, O sétimo selo não parece ter a segurança de Gritos e sussurros, e talvez nem a secura e a concisão de O silêncio; parece um primeiro tratamento de questões discutidas nestes filmes. Mas é possível que apenas o fato de vê-lo agora destaque o que ele tem de esboço para o que continuou a ser discutido adiante e deixe fora de quadro as suas qualidades próprias. O certo é que ele é um filme em que se encontram muitas das idéias desenvolvidas em filmes feitos depois dele. O artista agredido pela realidade (Jof e Mia no palco) o homem a procura do conhecimento “não a fé ou suposições, mas o real conhecimento” (Block na conversa com a morte) e a longa transformação da noite em manhã, “a passagem da escuridão para a luz difusa da hora do lobo” em que pessoas e coisas começam a ser vistas mais claramente (Jöns, Mia e Jof na conversa de noite) são temas ampliados nos filmes seguintes.

 

A história que serve de apoio para essas conversas em torno da condição dos homens é a de um cavaleiro que volta das cruzadas e encontra seu país devastado pela forme e pela peste. Esta história interessa, de fato, enquanto uma estrutura ligeira e aberta o suficiente para comportar os aparentes desvios e indagações sobre a natureza humana tal como a examinamos agora, e não como um ponto de partida para um retrato que se pretenda historicamente fiel ao que se passou na Idade Média. A peste, as cruzadas e o sofrimento interessam como um quadro alegórico do mundo de hoje, da presença do Diabo, isto é do horror e da humilhação, como uma expressão do silêncio de Deus.

 

O que importa, então, nestas repetidas confissões da dor da humilhação feitas por Bergman? De onde surge, afinal, a força e o interesse em torno destes lamentos, desta conversa que se repete de filme para filme? “Filmes são como pessoas. Gostamos, não gostamos, ficamos indiferentes”, disse o diretor na apresentação do roteiro de A hora do amor (The Touch / Beröringen, 1971). O que importa, talvez, nesta expressão que se apresenta sempre a mesma, é sua depuração, é que o de sempre parece sempre novo. Mais efetiva se torna a pintura da dor e da humilhação, surge mais forte por trás dela a reafirmação de que o homem determina o seu próprio sentido. A afirmação é feita pela negação. Maior o desespero, maior se torna a intensidade do pequeno instante de satisfação que nada pode quebrar ou impedir. Por mais insensata que seja a existência um só instante em que a vida se libera sem impedimentos é maior que todo o sofrimento.

 

Em Gritos e sussurros o instante é aquele relatado por Agnes em seu diário, uma tarde de verão com as irmãs no jardim (“queria parar o tempo e pensava: isto, em todo caso, é a felicidade. Não posso desejar nada melhor. Agora, durante alguns minutos, poderei viver a plenitude. E sinto uma grande gratidõ pela minha vida, que me dá tanto”).

 

Em O silêncio, o instante é aquele da a música de Bach e do prazer da tradução de algumas palavras.

 

Em O sétimo selo é o encontro do cavaleiro, dos atores Jof e Mia, do pequeno Micael e do escudeiro Jöns com os morangos e o leite fresco.

A vida vale a pena, ainda que reduzida a um breve instante.

Um instante a ser repetido na memória como uma cena de filme que se projeta de novo e de novo.

 

“Eu me lembrarei para sempre deste momento”, diz Antonius Block ao lado dos amigo. “O silêncio, o crepúsculo, os morangos e o leite. A luz do entardecer sobre as faces. Micael dormindo, A música de Jof. Vou guardar as nossas conversas. Vou carregar esta memória em minhas mãos, tão cuidadosamente como um prato cheio até as bordas de leite fresco. Cuidadosamente para não entornar. E este será um signo adequado e suficiente para mim”.

 

ver também Navegar é preciso

O fingidor;

Naufragar é preciso;

Da cor à cor inexistente

Música para os olhos;

O pesadelo do artista

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