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Pickpocket

Rooney Mara (Erica) e Jesse Eisenberg (Mark): A rede social de David Fincher

Rooney Mara (Erica) e Jesse Eisenberg (Mark): A rede social de David Fincher

 

No que nos conta, e principalmente no modo de contar, A rede social (The Social Network, de David Fincher, 2010) discute o conflito entre uma atenção exclusiva, concentrada num único ponto, e uma outra dispersa, voltada para todos os lados sem se fixar em ponto algum. Mais do que discutir, o filme situa o espectador no centro deste conflito, ao mesmo tempo no cinema, na sala de projeção com os outros espectadores, e na internet, com os personagens.

Talvez seja possível dizer que se trata de uma atenção desatenta, de um olhar que não se dedica a nenhum objeto em particular porque, digamos, não existe propriamente um objeto em que se possa concentrar o olhar. A rigor, nem mesmo uma história, pelo menos não uma história que se refira a algo real e concreto (por isso mesmo, Fincher, na cerimônia do Globo de Ouro, agradeceu a Mark Zuckerberg por ter cedido seu nome e história para a invenção de uma metáfora). Portanto, nenhum objeto como uma pintura, uma foto ou uma escultura, mas um processo. Um processo de estabelecer relações entre objetos. Entre pessoas e objetos.

Talvez seja possível dizer que existe um permanente deslocamento, um permanente estar em lugar nenhum – como Mark: ao mesmo tempo na sala do julgamento e na chuva lá fora, percebida no vidro da janela.

Talvez seja possível dizer que na aparente dispersão, superficialidade, simultaneidade do tempo corrido da internet quem conversa fala duas vezes antes de pensar – como Mark na cena inicial com Erica: no meio da frase ele salta para um outro tema e logo para uma terceira questão para assim discutir não exatamente qualquer destes temas mas a invenção de um modo de estabelecer uma relação entre eles, que parecem não ter nada a ver um com o outro.

Talvez seja possível dizer que tudo isso seja de fato uma questão cinematográfica, uma redução (da tela de cinema para a do computador ou do celular), uma ampliação (da tela de cinema para dentro de casa para ser guardada no bolso). Uma extensão do que certa vez Robert Bresson definiu como o essencialmente cinematográfico: propor relações entre as imagens. Um filme, disse, é feito não de imagens mas da relação entre as imagens.

Assim, A rede social, a atenção mais voltada para a rede, nos diz que o cinema, não necessariamente os filmes mas o processo criativo do cinema, ou permitiu estabelecer novas relações sociais e compreender um pouco melhor a vida como ela é, ou nos acostumou a viver a vida como ele é.
A vida como ele é corre como um trailer de um pouco menos de dois minutos com tudo o que um filme conta em pouco menos de duas horas. A vida como ele é mostra na relação que estabelece entre as imagens algo que, sim, resulta do entrelaçamento das imagens mas não se encontra em nenhuma delas. A conversa entre Mark e Erica, feita de diversos planos, a câmera ora num ponto de vista perto dele ora num outro perto dela, parece feita de um plano só, contínuo, porque a fragmentação da imagem é simultânea à fragmentação da conversa. O que A rede social faz então é um plano-sequência da fala de Mark assim como ela é, feita de muitos e simultâneos pontos de vista.

Estar simultaneamente em dois ou mais pontos de vista é uma sensação familiar para o espectador de cinema. É graças a esta mobilidade que ele, observador privilegiado, dentro e fora da situação que observa, pode se antecipar aos personagens em cena e saltar emocionalmente para dentro dela. Ele já viu algo que o herói não pode perceber do ponto de vista fixo em que se encontra na cena. Mas aqui os personagens vivem neste mesmo espaço desconcertante em que se encontra o espectador de cinema no instante da projeção.

O filme na tela, o espectador ao mesmo tempo num pólo e noutro, atento (ao filme) e desatento (de si mesmo), não vive uma coisa, a atenção concentrada, como oposição da outra, a atenção dispersa. Vive uma como se fosse a outra. O que A rede social sugere é que desde sempre dedicamos a tudo uma atenção ao mesmo tempo fechada e aberta, concentrada e dispersa, e se nos damos conta disto devemos aprender a desconcentrar-se sem perder a concentração, ou vice-versa, dar atenção exclusiva à desatenção. Conversar duas conversas ao mesmo tempo, como Mark com Erica no bar. Estar em dois espaços ao mesmo tempo, como Mark na sala e na chuva lá fora. Ser dois ao mesmo tempo, como o ator Armie Hammer em cena como os gêmeos Cameron Winklevoss e Tyler Winklevoss.

Talvez, quando surgiu, a fotografia tenha sido sentida como uma atenção dispersa frente ao olhar exclusivo solicitado pela pintura. Assim como o filme, que quando surgiu, pareceu dirigido a uma atenção dispersa, se comparada com a dedicação exigida pela leitura de um livro. E assim como a televisão, logo percebida como uma força de dispersão do concentrado espectador de cinema. Assim também, a internet, agora, é sentida como uma força de dispersão frente ao olhar habituado com a televisão, o cinema, a fotografia, a pintura e tudo o mais. Talvez a questão, desde antes da fotografia, seja mesmo perguntar-se se desenvolver uma visão multifocal significa perder o foco.


Deste modo, a imagem que abre o filme, Mark e Erica no bar, e a que encerra o filme, de novo Mark e Erica, ele no computador, ela na tela do Facebook, são essenciais para a história contada em A rede social. Isto é, não exatamente a história que pode ser resumida na ação dos personagens – a história de como Zuckerberg criou a rede, ou roubou a idéia da rede, de acordo com os gêmeos Winklevoss, ou o dinheiro de seu sócio, de acordo com Saverin –, não a trama que se estende ao longo de A rede social, mas o que de fato importa, o que as relações entre as imagens revela para o espectador, o conflito entre uma forma de atenção dedicada e uma outra dispersa. Entre internet e cinema, se preferimos um olhar que não se fixa em ponto algum; entre cinema e cinema, se preferirmos concentrar o olhar num ponto preciso.

Montar a imagem inicial (entra no meio de uma conversa percebemos mais o tom da conversa do que propriamente o que se fala, porque a câmera muda de ponto de vista a cada nova frase de Mark ou de Erica) com a imagem final (Mark não diz palavra e a câmera parece tão parada quanto ele que repete o gesto mecânico de pressionar a tecla do computador), montar as duas imagens é como aproximar o cinema de David Fincher do cinema de Robert Bresson. Certamente, nada a ver entre a agilidade da câmera e a intensidade dramática das ações nos filmes de Fincher e a busca de imagens vazias nos filmes de Bresson – atenção concentrada num único ponto, às vezes as mãos ou nos pés de um personagem, outras um canto vazio do cenário. Mas Fincher, que joga para frente as possibilidades da imagem digital, e Bresson, que jogava para o futuro as invenções do tempo do cinema mudo, encontram-se num comum entendimento do cinema como expressão feita não de imagens mas de relações entre imagens.

Por isso mesmo não deve surpreender que a cena final de A rede social seja igual à de Pickpocket, que Robert Bresson realizou em 1959. Mark, diante do computador com a imagem de Erica, é um reflexo de Michel no instante em que por trás das grades diz para Jeanne (“algo iluminava o rosto dela”) que percorreu estranhos caminhos para chegar até ela:

“Oh Jeanne, pour aller jusqu’a toi quel drôle de chemin m’a fallut prendre”.
O Michel de Bresson, que com o olhar concentrado na carteira que iria roubar passou por Jeanne sem se dar conta dela, ensinou o Mark de Fincher a dispersar o olhar sem perder de vista o real objetivo daquele estranho caminho: pressionar, uma, duas, três e outra e outra e outra vez o enter no teclado do computador iluminado pelo rosto de Erica na página da rede social.

[Originalmente publicado em dezembro de 2010 em www.ims.com.br]

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