O trem insatisfeito

The Rolling Stones , Shine a Light de Martin Scorsese

The Rolling Stones , Shine a Light de Martin Scorsese

 

Em lugar do mais ou menos tradicional passeio pelos bastidores do teatro para revelar um pouco da intimidade dos artistas antes do início do show, uma apresentação dos bastidores do filme.

 

Shine a Light , o filme de abertura do festival, começa com imagens em preto e branco, gravadas em video digital: Martin Scorsese (em Nova Iorque) e Mick Jagger (em Londres) acertam detalhes para a filmagem da apresentação dos Rolling Stones no Beacon Theatre de Nova Iorque em outubro de 2006. Às vezes diante de uma maquete do palco, outras diante de uma lista das possíveis canções que serão apresentadas, outras ainda em conversas ao telefone, entre entendimentos e desentendimentos sobre a movimentação das câmeras no palco, os efeitos de luz e a ordem de apresentação das músicas.

 

O filme propriamente dito é o espetáculo dos Stones e ao acompanhar a performance de Jagger no palco Scorsese se encontra num espaço familiar. Seus filmes passam na tela mais ou menos assim como no palco Mick corre, salta, estende os braços e torce o corpo em gestos elétricos e ansiosos como os de alguém que (assim traduz a canção) can get no satisfaction. Jagger se movimenta em cena tal como Scorsese fala: o diretor conversa sempre com uma fala agitada e nervosa. Ele fala rápido – a segunda palavra da frase começa antes que a primeira acabe de ser pronunciada, a terceira atropela a segunda e assim por diante.

 

Antes de Shine a Light, pelo menos dois outros filmes sobre os Stones foram realizados: Jean-Luc Godard acompanhou os ensaios para a gravação de Sympathy for the Devil em One plus one (1968) e Albert e David Maysles documentaram o concerto realizado em dezembro de 1969 nos Estados Unidos em Gimme Shelter (1970). Mas diferentemente de Godard, que insere o documento da gravação dos Stones numa discussão sobre os Panteras negras, e de Albert e David Maysles, que documentam o espetáculo a céu aberto para uma platéia estimada em cerca de 300 mil pessoas, diferentemente Scorsese filma como um cúmplice dos Stones, ou vice-versa, como se eles fossem cúmplice do filme que ele queria fazer.

 

Em Shine a Light Scorsese e Jagger parecem feitos um para o outro. O personagem, muito depois de ter-se inventado, encontrou, finalmente, seu autor; e o diretor, por sua vez, encontrou o personagem que persegue desde seus primeiros filmes. O personagem e seu intérprete ideal, nem precisa conduzi-lo, explicar-lhe o que fazer em cena. O ator, antes o filme, já conhecia o roteiro e a cena, estava pronto para fazer aquele personagem à beira um ataque de nervos interpretados certa vez por De Niro (Taxi driver, 1976), outra por Joe Pesci (Goodfellas, 1990), outra mais por Daniel Day Lewis (Gangs of New York, 2002) - para lembrar alguns atores convidados a dar vida aos hipertensos personagens de Scorsese.

 

Aqui Scorsese se deixou conduzir pelo personagem que inventou, ou pelo personagem que o inventou, ou por um personagem-pai, origem de todos os que ele criou. Como se reencontrasse em Shine a Light uma das figuras fundamentais para a invenção de seu cinema, Scorsese apenas determina a posição das câmeras diante dele – e “apenas” não é, certamente, a palavra que melhor define o trabalho do diretor, porque não se trata apenas de uma indicação técnica e objetiva mas sim de, por meio desta indicação organizar, como num roteiro, o filme a ser feito: uma câmera no fundo do palco, outra com o público, na frente e por baixo da cena, e pelo menos outra mais por cima de cena, solta no espaço, em pleno vôo na ponta de uma grua. Scorsese distribui as câmeras e deixa que Jagger conduza a filmagem, porque a imagem está quase todo o tempo está onde ele está (e de quando em quando também onde está Keith Richards). Como se vê na abertura do filme, o diretor preparou toda a cena para se deixar conduzir pelos músicos durante a filmagem e para retomar o controle do documentário adiante, na montagem.

 

Shine a Light, de Martin Scorsese

Keith Richards, Charlie Watt, Martin Scorsese, Mick Jagger e Ronnie Wood: Shine a Light

 

À primeira vista é como se tivéssemos aqui a confirmação do lugar-comum sobre a realização de um documentário (e sobre o que tende a ser a prática comum nos filmes feitos com equipamento digital): uma total disponibilidade na filmagem, olhos bem abertos para ver tudo e de todos os pontos possíveis e imagináveis; o filme enquanto filme se organiza na seleção e ordenação das cenas filmadas, o filme surge na montagem. Não é bem assim como parece. Em Shine a Light mesmo o imprevisível foi cuidadosamente previsto. Como num espetáculo embora aberto à improvisação longamente ensaiado, o show no Beacon Theatre e o filme sobre o show foram ao longo do tempo preparado em apresentações anteriores dos Stones e programado por Scorsese de modo a incluir o cinema como um outro músico da banda, ele também no palco do teatro.

 

Tudo previsto e cuidadosamente ensaiado: da canção de abertura ao final com (I can get no) Satisfaction; dos detalhes das caretas e olhares de Mick aos risos satisfeitos de Keith, aqui e ali cuspindo o cigarro que trazia num canto da boca ao mesmo tempo em que soava sua guitarra para cantar um verso; dos efeitos luminosos que sublinham com um relâmpago ou explosão que quase cega um instante preciso da música ou um gesto para chamar a participação do público.

 

Convém repetir: se tudo parece natural isso se deve a uma espontânea afinidade entre o cinema de Scorsese e o teatro de Jagger, um e outro apoiados em luz e som, audiovisual de ritmo ansioso e que salta do palco para cima do público assim como certo dia um trem ameaçou se jogar da tela para dentro da sala do cinematógrafo na estação de La Ciotat. Como os tempos são outros, o público de agora não se assusta mais (como se assustou toda gente diante do cinematógrafo) com a possibilidade do espetáculo despencar em cima dele. Ao contrário, tudo o que o público quer é ser atropelado pelos Stones. 

 

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