Caminhar às cegas

[notas escrita para Jornal e publicada em 3 de setembro de 1975]


Profumo di donna de Dino Risi

 

Até que ponto um intérprete interfere num filme e faz com que todas as coisas passem a girar em torno dele?

 

Conversando a propósito de Perfume de mulher | Profumo di Donna (1974) Dino Risi declarou ter pensado em três diferentes intérpretes para o personagem principal.

 

O primeiro foi Marlon Brando, “uma solução interessante, mas que me obrigaria a renunciar ao humor negro. O filme teria talvez crescido em rigor, em precisão, em força. Teria sido mais dramático. A condição do cego, sua ligação com a mulher e o seu diálogo com a morte, aqui apenas esboçado, teriam recebido maior destaque”.

 

O segundo foi Ugo Tognazzi, “um excelente ator, que teria seguramente humanizado um pouco mais o personagem. Teria feito um Fausto mais doloroso”.

 

A escolha recaiu finalmente em Vittorio Gassman, “que tem a força física, uma autoridade natural, uma grandiosidade, uma nobreza e uma certa beleza que quase nos faz esquecer sua doença”.

 

Organizado em torno de Gassman, Perfume de mulher conta uma história cujo objetivo principal é aproximar a platéia de seu protagonista, o capitão Fausto, um militar cego que viaja de trem de Turim até Nápoles em companhia de um jovem e inexperiente soldado Giovanni, que recebe do capitão o apelido de Ciccio. Na primeira metade do filme as situações são construídas para enfatizar o contraste entre Fausto e Ciccio. Para mostrar que, enquanto o jovem é ingênuo e inseguro, incapaz de se conduzir por si mesmo, o oposto do que se espera de um jovem, o velho capitão é dotado de uma grande energia e de um sexto sentido que compensa amplamente a sua cegueira.

 

Num restaurante ao ar livre Fausto identifica entre os muitos ruídos o som da bengala de um cego vendedor de bilhetes de loteria, que passa distante na rua. Num clube noturno Ciccio é incapaz de evitar que Fausto se envolva numa briga e recebe em pleno rosto o soco que o capitão cego endereçara ao inimigo.

 

A cena em que os dois caminham de madrugada na rua – Ciccio, meio embriagado, sem condições de ser um guia eficiente, termina por ser conduzido para o hotel pelo braço do cego – resume com perfeição o espírito deste confronto entre o soldado introvertido que não vê a traição da namorada e o irreverente capitão que percebe a presença de uma mulher bonita à distância, pelo seu cheiro.

 

Invertem-se os papéis e o cego se transforma em guia de seu guia. Verdadeiro guia de Ciccio, o Capitão Fausto é também o personagem que conduz o espectador, algumas vezes reduzido pela câmera à mesma ingenuidade do soldado, outras vezes dominado pelo vigor do cego. Desinibido, irônico, o Capitão usa sua cegueira como uma arma, para se situar num campo privilegiado para zombar do convencionalismo da sociedade.

 

“Creio que as pessoas gostariam de ter uma doença que as colocasse em condições de gozar alguns privilégios” – afirmou Dino Risi. O prazer do espectador, aqui, nasce do contato com um personagem que, submetido a uma condição que ninguém gostaria de compartilhar, age normalmente, como se pudesse ver, com agilidade e desenvoltura maior do que a dos personagens que realmente podem ver. O que parecia ser uma vítima (do maior dos infortúnios do ponto de vista do espectador de um filme: a cegueira) desperta um sentimento ambíguo: de admiração e de estranhamento, porque, como define Risi, Fausto é também “um homem desagradável e agressivo que diz algumas verdades.”

 

Num instante, simula não poder usar os braços, para forçar uma freira a desabotoar a braguilha de sua calça. Noutro, finge não perceber a presença de um velho companheiro de farda para ridicularizá-lo diante de todos. A todo momento surpreende Ciccio com observações de uma precisão que escapa aos olhos do jovem. No entanto a identificação – ou admiração, como prefere Risi – com o protagonista do Perfume de mulher não depende apenas de sua habilidade em encontrar soluções para os incidentes da viagem. A parte mais importante desta relação afetiva entre a platéia e o Capitão Fausto se deve ao carisma do ator Vittorio Gassman, um pouco por suas qualidades de intérprete, um pouco pela familiaridade do público de cinema com sua imagem, com o seu jeito de interpretar.

 

“Estamos diante de um doente que não se comporta como uma vítima”, disse Risi. “Fausto age como Gassman, de um modo extrovertido, vital, físico mesmo. Ver uma doença tão paralisadora quando a cegueira ser dominada com alegria, ainda que na aparência, é profundamente reconfortante no cinema. Os filmes policiais costumam mostrar os cegos como condenados: eles são, estrangulados porque não podem ver a maçaneta da porta se mover, nem sentir a presença do assassino a dois passos.”

 

Para melhor interpretar seu Capitão Fausto, Gassman observou atentamente o comportamento dos cegos e ensaiou trabalhar com lentes de contato, que lhe dessem um olhar frio e distante, e um ligeiro estrabismo. Mas o que importa não é propriamente o esforço do ator, os artifícios usados para construir um personagem novo, mas a personalidade do ator, a marca pessoal que ele costuma imprimir nos personagens que interpreta. Importa mesmo é o ator: difícil dizer atee onde ele interpreta o personagem e atee onde o personagem foi criado só para que ele interprete a si mesmo.

 

Risi procurou um tipo forte para dominar a platéia de cinema. Uma figura dramática capaz de impressionar à primeira vista (um cego dotado de visão especial) e um ator capaz também de impressionar à primeira vista (como Gassman, ator de forte expressão corporal e razoável popularidade).

 

Jean Louis Trintignant e Vittorio Gassman, Aquele que sabe viver de Dino Risi
Jean Louis Trintignant e Vittorio Gassman, Aquele que sabe viver de Dino Risi

 

Não foi propriamente um trabalho de criação que levou Gassman ao prêmio de interpretação em Cannes, mas a personalidade do ator, a repetição dos maneirismos já usados em filmes anteriores. Em particular, os maneirismos de Aquele que sabe viver | II Sorpasso (1963) que fez com o mesmo Risi.

 

“Fauto, até certo ponto, é aquele mesmo personagem de II Sorpasso – afirma Risi – talvez 20 anos mais tarde. Naquele momento discutíamos o boom econômico da Itália. Agora é a crise. Mergulhamos todos nas trevas com o Capitão Fausto. Ele é muito representativo, podemos dizer, do momento sócio-político que estamos vivendo”.

 

Tudo neste filme procura levar a platéia a se deixar conduzir pelo personagem central. Em verdade não é difícil identificar-se com um personagem assim individualista, anarquista, libertário, capaz de concentrar sem si qualquer insatisfação das pessoas diante de uma qualquer convenção social. E uma vez conseguida a identificação, a que ponto pretendem chegar Risi e Gassman? Aparentemente o realizador se satisfaz com a projeção, com a identificação. Perfume de mulher não pretende ir além desta confirmação de um estado geral de desconforto. Tentar identificar o que se esconde por trás da amargura insinuada em alguns pontos desta viagem revela apenas afirmações contraditórias. A história – uma adaptação do livro Il buio e il miel de Giovanni Arpino feita por Risi e por Ruggero Maccari – é a de um homem que viaja para se suicidar, tem medo no momento final e deixa-se levar pela mulher, Sara. Para Risi Sara teria encontrado a ideal situação feminina, “creio que todas as mulheres gostariam de ter um cego como companheiro: ele é um homem condenado a ser fiel, e as mulheres sonham em se sentir Indispensáveis para a vida do homem que amam.”

 

De Turim a Nápoles, com paradas em Gênova e em Roma, o Capitão Fausto e o soldado Ciccio fazem um passeio que em realidade sai do nada para coisa nenhuma – modo de narrar que permite ao espectador perceber uma história essencialmente voltada para a cegueira. Todos os personagens aqui, os que vêem tanto quanto o capitão Fausto que perdeu a visão, caminham às cegas

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