A casa da palavra

 

Olho de boi de Hermano Penna

Olho de boi de Hermano Penna

 


O mesmo modo de comprimir a ação num pequeno espaço de tempo e numa geografia não muito definida, o mesmo tom áspero e seco de narrar e ainda uma idêntica predileção por uma cena feita de poucos personagens que, pressionados, a um passo de arrebentar de ódio e sofrimento, falam quase sem parar numa tentativa frustrada de conter a tensão: todas estas coisas que têm em comum aproximam Olho de boi (2007) e Sargento Getúlio (1983) como se o filme de agora fosse filho, descendente direto, do anterior; como se discutissem um com o outro assim como se dá a conversa de Modesto e Cirineu, padrinho e afilhado, personagens do filme de agora, que atravessam a noite de tocaia para a vingança na hora em que a primeira luz da manhã briga com a noite que resiste para não ir embora.

Antes mesmo de saber quem são os dois cavaleiros que numa noite de chuva forte buscam abrigo numa igreja abandonada, o altar destruído, o Cristo crucificado caído no chão, já se pode saber que a tempestade dentro de um e outro é ainda mais forte que a chuvarada que os leva a entrar na igreja a cavalo, apesar do medo de pecado  –“Não acho certo os cavalos. É a casa de Deus” . Um deles não quer levar o cavalo para dentro da igreja, mas não consegue convencer o outro  – “Você não tem que achar nada. Nem santo mais tem por aqui. Besta maior é o homem, e não dizem que Deus fez a igreja pra nós?”.

A dramaticidade da frase musical que surge mesmo antes da primeira imagem, os bois a caminho do abate e a fala breve sobre a figura de dois homens entrevistos no reflexo do olho do boi que vai ara o abate anuncia uma qualquer coisa perto da tragédia: “padrinho, quero lhe contar uma coisa”. E então, o gado, o braço do vaqueiro descendo forte para o golpe na cabeça do boi, o branco que quase cega, o gemido forte do gado que se mistura ao trovão e ao escuro da noite, tudo confirma o que se insinua na música e nas imagens do gado à espera do abate. Adiante, diálogo na entrada da igreja sem dizer quase nada diz quase tudo, e não só porque os dois homens falam como quem rosna ou troveja, mas também porque a conversa define com precisão o cenário em que vai se passar o drama que mal se inicia: não tem mais santo; Deus está cego, “desistiu de nós faz tempo”; besta maior é o homem.

Quando a chuva pára e padrinho e afilhado saem da igreja, de um certo modo continuam dentro dela: o espaço aberto é ele também fechado e em ruínas, sem Deus, sem santo, sem nada; o aberto, no escuro da noite e na tensão da espera, é como a igreja em ruínas ou como o corredor estreito que empurra os bois para o matadouro.

A chuva lá fora ainda forte, mas protegido dela no que restou de um banco de igreja, rifle na mão e cachaça na outra, Modesto só quer saber de uma coisa do afilhado Cirineu: “Você tem certeza acertada dessas coisas que você me falou?” A resposta é de não deixar dúvidas: “Tenho sim, padrinho”. Mas a dúvida continua a perseguir o vaqueiro que largou o trabalho e se embrenhou noite adentro em busca de vingança (“não tem exagero daquilo que você viu para aquilo que você me falou?”). Cirineu insiste que o que contou o que viu sem exagero algum e a crença nenhuma do padrinho continuará a amargurar o afilhado: o padrinho não tinha nenhuma consideração por ele, achava que ele era uma decepção, era um bosta, um traste, um estropício de nenhuma serventia. Só estava ali porque viu e contou e o padrinho precisava dele para certificar-se daquela história que lhe enchia de ódio.

Para aumentar o ódio na espera do momento de vingança, cachaça e café. Cachaça para dar sono, fazer tudo parecer um sonho; café para deixá-lo acordado dentro do sonho, tomando raiva, aumentando a fome de sangue até ela ficar grande e ele se sentir capaz de comer a carne do patrão, do filho do patrão e ele nem sabe mais de quem. Modesto achava que a vida só poderia acabar mal para os bois no matadouro, mas agora, ali, enfrentando a traição (“Inimigo não trai; só amigo trai. Traição é morte que humilha”) agora, ali, parecia que tudo ia acabar tão mal para ele que Modesto até começa a se perguntar se não seria melhor se existisse algum Deus nessas paragens. Pensa e logo corta o pensamento como se não fosse coisa pensada por ele (“Inferno! Eu falo cada coisa que até eu mesmo estranho”) e quase se dá o mesmo grito de reprovação que a todo instante jogava pra cima de Cirineu: “Cale essa boca!”

Na espera, na noite fechada de Olho de boi, o que se move de fato é a palavra. Modesto e Cirineu falam quase todo o tempo. Às vezes fala sussurrada, quase choro, para dentro; outras, gritos para humilhar o outro. Ofendidos e humilhados. Modesto sofre porque traído e se vinga primeiro em Cirineu, despeza o afilhado porque ele era uma decepção, nascera para gato jamais chegaria a onça. Cirineu, sofre porque o padrinho sente vergonha dele e ao mesmo tempo se vinga do padrinho com resmungos: ele, com toda a sabedoria que tinha, não conseguira ver o que só ele descobrira sobre a madrinha. A palavra é que se move, em círculos, em espiral, num mergulho para dentro dela mesma, num fluxo em que se perde a consciência: o que fala não controla mais o que diz. O que Modesto comenta com espanto diante do que acabara de dizer (seria bom se existisse algum Deus) poderia ser repetido por Cirineu na medida em que o medo, a raiva, a humilhação,  a vingança, o levam a acrescentar mais e mais detalhes ao que contara ao padrinho. Cirineu poderia dizer também: “eu falo cada coisa que até eu estranho”.

 

Padrinho e afilhado, como outrora o sargento que fora arrastar o “coisa” até a capital para cumprir a ordem do chefe, se deixam atropelar pelas palavras como se o que eles pensam tivesse na verdade sido pensado por outro. O chefe pensava por Getúlio, e Getúlio se limitava a dar corpo e ação às palavras do chefe. O pensamento de um outro e invisível chefe (o Deus cego que Modesto garante que ninguém nunca viu? O espírito do tatu que Modesto prefere não ver?) pensava por Modesto e Cirineu. O  chefe invisível exige que padrinho e afilhado sejam apenas os executores de sua palavra.

 

Imaginemos um filme como o pai do outro: retomemos na memória Sargento Getúlio, o primeiro de Hermano Penna, para colocá-lo ao lado de Olho de boi, seu quinto longa-metragem. Depois de mostrar o que mostram quando vistos isoladamente, os dois filmes se revelam duas faces da mesma tragédia. Um espelho do outro. Imagens de um mesmo universo em que  – verdade? mentira? delírio? –  a palavra cega.

 

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