A reinvenção do passado

Gael García Bernal e Analía Couceyro: O passado, de Hector Babenco

Gael García Bernal e Analía Couceyro, O passado de Hector Babenco

 

O título do novo filme de Hector Babenco mais do que se referir à história que conta se refere ao modo de contar: O passado procura um diálogo com a tradição do melodrama no cinema latino-americano – nem tão familiar ao cinema brasileiro, mas presença fundamental na cinematografia mexicana e também na argentina.

 

Uma conversa crítica que passa pela inversão dos papéis costumeiramente atribuídos a homens e mulheres nos melodramas da América Latina: o personagem masculino, aqui, sofre a ação com uma fragilidade idêntica à das personagens femininas nos grandes dramas sublinhados por uma sempre presente e chorosa, e nostálgica, e triste, música instrumental. O Rimini interpretado por Gael García Bernal não age, sofre a ação. Quem conduz a ação são as das mulheres, quer porque conseguem superar o sofrimento, quer porque o elevam o sofrimento a um nível insustentável e arrastam a história em torno delas.

 

Uma conversa crítica porque passa também, e principalmente, por uma inversão da função tradicionalmente atribuída à câmera: ela apenas documenta, sem se envolver, o sofrimento dilacerante do personagem central; não faz do espectador um cúmplice dele, ao contrário: a câmera parece empenhada em levar o espectador a se afastar do protagonista na medida em que ele se reduz mais e mais a um quase-nada. Dentro da imagem os personagens vivem uma tragédia, mas a imagem vive uma outra coisa, segue aquele mesmo modelo de desdramatização do melodrama sugerido pelo mexicano Jorge Fons num trecho de seu Beco dos milagres (Callejón de los milagros, 1995): um personagem que se desfaz em lágrimas, só máscara de sofrimento, diz para um amigo que vive uma tragédia. O amigo responde, indiferente e irônico, que tragédia é coisa de gregos. Subdesenvolvidos vivem no máximo um melodrama.

 

A notar ainda o diálogo interno que Babenco desenvolve com ele mesmo: depois de contar uma história real em tons marcadamente melodramáticos (Carandiru, adaptação do livro|documentário de Drauzio Varela) conta agora um melodrama assim como quem filma um documentário (O passado adaptação do romance de Alan Pauls).

[Rio, 3 de novembro de 2007]

 

 

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