Meu nome não é Johnny de Mauro Lima

Meu nome não é Johnny de Mauro Lima

 

André Ramiro,Tropa de elite de José Padilha

 

Fábio Lago, Tropa de elite de José Padilha

 

André Ramiro,Tropa de elite de José Padilha

 

André Ramiro,Tropa de elite de José Padilha

Tropa de elite de José Padilha

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Duas caras

[Rio, 19 de janeiro 2008]

Selton Mello, Meu nome não é Johnny de Mauro Lima

Selton Mello, Meu nome não é Johnny de Mauro Lima

 

 

A impressão primeira, aquela que se recebe assim que a projeção começa, é a de que o filme já está na tela mas ainda não começou de verdade: as imagens iniciais de Meu nome não é Johnny parecem uma nota introdutória. O narrador, por timidez ou insegurança, retarda o começo da narrativa com imagens de uma festa de crianças feitas à maneira de um filme amador. Depois mostra imagens em que o menino João, na praia, com amigos da escola, descobre a droga como um brinquedo novo. Estas não são de fato as primeiras cenas do filme. Antes delas existe uma outra de colorido mais triste e luz mais sombria em que o personagem, adulto, na pele do ator Selton Mello, lê, entre outros papéis sobre a mesa, a mensagem no verso de um cartão com a figura de Papai Noel (uma frase tirada de Margherite Yourcenar):

“O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que lançamos pela primeira vez um olhar inteligente sobre nós mesmos”.

 

Tudo isto funciona como um prólogo, como base dos letreiros de apresentação ou como ação introdutória que prepara o espectador para melhor receber a história que começa a ser contada adiante. Assim, antes de propriamente entrar na história, o espectador passa por um conjunto de imagens que adjetiva o que vai ser mostrado: a montagem paralela entre um personagem levado preso num carro de polícia e uma criança levada a um passeio no carro de seu pai, ou seja: o adulto preso tem algo de criança. Vamos acompanhar a história de alguém que, infantilmente, como uma criança, se deixou envolver numa ação criminosa .

 

O filme começa mesmo de verdade quando Selton Mello reaparece na tela, quando a narração se decide por um salto brusco passar do tempo de criança para o de João adulto, consumidor de drogas e logo, porque consumidor exigente, passar de consumidor a traficante – para garantir a qualidade do produto que consome, sugere o filme.

 

Bastante provável que uma vez iniciada a história o espectador se esqueça do que retardou o seu começo para acompanhar a aventura de João no tempo do irônico, divertido, falante e bem sucedido Johnny: as seguidas festas em casa, o gradativo envolvimento com o tráfico de drogas, a peixaria, a pressão dos policiais corruptos, a viagem a Veneza. No entanto, é mais que certo, o espectador sai da projeção com estas imagens na memória e não apenas porque elas se repetem no final do filme , porque vê de novo o cartão com o Papai Noel sorridente e a frase de Yourcenar nas mãos de Selton Mello e o filmezinho amador da festa de crianças. As imagens ficam na memória porque elas se propõem a explicar o personagem, a sugerir que ele, durante toda a aventura que viveu, foi o que se vê na imagem que encerra a narrativa, a criança sorridente da festa infantil.

 

Talvez a história de Meu nome não é Johnny, de Mauro Lima, comece de verdade exatamente aí, em sua imagem final, no rosto em primeiro plano de João criança. Talvez seja possível montar este primeiro plano|último plano com outro, o que conclui a narrativa de Tropa de elite, de José Padilha, o do traficante caído no chão  – ele pede aos policiais que não atirem na cara dele para não estragar o velório.

 

Tropa de elite de José Padilha

 

Ou seja, é assim mas não exatamente assim, pois os planos dos rosto do traficante não é a última imagem de Tropa de elite ( depois dela vem o rápido primeiro plano do rosto do policial pronto para o tiro) nem o rosto de João a último plano de Meu nome não é Johnny. E, mais importante que tudo, os filmes não foram feitos para funcionar assim, em diálogo, um como a pergunta|resposta do outro para discutir a figura do traficante, o da favela e o do asfalto. O que se propõe aqui é uma livre construção de espectador, porque dramaticamente o que de fato conclui a narrativa de um e outro é a imagem do rosto do sequestrador, pouco antes de morrer num deles, numa brincadeira de crianças no outro . A montagem destas cenas finais permite que um filme seja tomado como ponto de partida para o entendimento e questionamento do outro:

 

O consumidor de drogas de classe média é cúmplice da violência imposta pelo traficante de drogas na favela, financia o tráfico, sugere o filme de Padilha.

 

O traficante que revende a droga para o consumidor de classe média, é um inocente, não estimula, não financia a violência, não tem culpa de nada, sugere o filme de Lima.

 

Um traficante mata o garoto que torturado pela polícia aponta o esconderijo e mata também o policial que vai à favela ajudar o menino míope a ver melhor. O outro, não manda matar ninguém, não faz mal a ninguém, é só uma criança (míope?) que não vê bem.

 

Montar os planos finais, mas sem esquecer que Tropa de elite passa pelo traficante da favela e pelo que negocia a droga entre os jovens da classe média  – mas discute mesmo é o policial. Montar os planos finais sem esquecer que Meu nome não é Johnny passa pelo traficante da favela, passa pelo policial corrupto e pela brutalidade do cárcere  – mas discute mesmo é o jovem traficante de classe média.

 

Em maior ou menor medida os dois filmes se inspiram em fatos reais, mas não se apresentam como uma reconstituição do realmente acontecido e sim como ficção que trabalha a realidade com a necessária liberdade para a invenção de uma imagem cinematográfica. Padilha conta sua história apoiado nas formas de trabalho do cinema documentário; Lima, na construção dramática do cinema norte-americano – seu personagem é um parente não muito distante do herói solitário das aventuras de Hollywood. O pai meio doente meio ausente, não participa da aventura; a namorada desaparece tão logo ele é preso; os amigos e cúmplices das festas são como um pano de fundo para a cena feita só para o protagonista – é bem verdade, pano de fundo mais colorido que o do cárcere, que é metade a inércia sombria da cela e do pátio, metade explosão de brutalidade com a conivência dos carcereiros.

 

O reaparecimento da mãe no trecho final da narrativa, logo depois da prisão, prepara e dá mais força ao que a imagem final sintetiza: João é menos que uma criança, ainda não nasceu de verdade; a mãe, ali, tem nos braços o filho que ainda não nasceu, que ainda não encontrou o lugar em que vai nascer.  Nascer mesmo só uma vez concluída a história que o filme nos conta. A história, o que o filma conta, se passa fora do tempo e do espaço real, numa dimensão anterior ao nascimento do personagem. Ele vive tudo aquilo numa vida antes da vida, como um sonho na barriga da mãe – é o que indiretamente dizem as imagens que na abertura atrasam o começo do filme e que repetidas no final concluem pela segunda vez uma narrativa que de fato se concluiu pouco antes. Quando tudo termina, volta ao sorriso de criança. Nasce enfim. O que é sob todos os aspectos tranquilizador  – para o personagem e para o espectador que se atende ao convite da construção dramática de Meu nome não é Johnny e se projeta sentimentalmente nele: foi tudo um sonho de transgressão.

 

Mais significativo que eventuais semelhanças das linhas de composição, os dois últimos | primeiros planos de Tropa de elite e de Meu nome não é Johnny são radicalmente diferentes e simultaneamente iguais: cada um a seu modo, os dois traficantes tentam livrar a cara.

 

> ver também a nota O espectador de elite sobre Tropa de elite,

> ver outros textos sobre Cinema brasileiro

> retornar ao alto da página

> retornar ao Index

 

 

escrevercinema - Voltar à Index