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O cinema no túnel de Van Gogh

[nota escrita para jornal e originalmente publicada em julho de 1990]

 

Van Gogh, desenho de Akira Kurosawa para o roteiro de Sonhos

Van Gogh, desenho de Akira Kurosawa para o roteiro de Sonhos

Martin Scorsese no papel de Van Gogh: Sonhos de Akira Kurosawa

Martin Scorsese no papel de Van Gogh: Sonhos de Akira Kurosawa

 

No livro “parecido com uma autobiografia” (Something like an Autobiography, Alfred A. Knopf, New York, 1982)  Akira Kurosawa conta como surgiu seu interesse pelo desenho. Tinha sete anos. Estava na escola primaria. O professor mandou que os alunos em lugar de copiar determinado modelo como de costume desenhassem livremente o que quisessem. Ele não se lembra o que tentou desenhar, mas sabe que desenhou com toda a força que tinha. Pressionou tão fortemente os lápis coloridos sobre o papel que eles se quebraram. E então com saliva na ponta dos dedos espalhou as cores no papel. O professor gostou especialmente destas manchas, e o desenho ganhou a nota máxima. O menino Akira passou a gostar de desenho. E da escola. E dos estudos, porque até então se sentia deslocado e desinteressado na sala de aula.

 

[Kurosawa conta em sua autobiografia que um dia sentiu-se mal ao ver um filme de Hiroshi Inagaki, Wasurerareta kora | Crianças esquecidas (1949), uma cena com uma criança retardada. Ao ver a cena ele se reconheceu no personagem de um menino que parecia deslocado na sala de aula enquanto todos os demais prestavam atenção no que o professor dizia. Sentiu-se mal, retirou-se da projeção, foi ajudado por uma funcionária do cinema, e só adiante deu-se conta do que ocorrera: ele se lembrou de uma coisa desagradável que procurara apagar da memória, o tempo em que a escola primária lhe parecia um cárcere e em que o professor anunciava a cada novo tema na sala de aula, “agora vamos tratar de um problema que Akira provavelmente não vai entender” ou então “Será impossível para Akira resolver esta questão, mas vamos a ela”.]

 

Passou a desenhar todos os dias e todas as coisas. Aos 18 anos, conta mais adiante, passava os domingos pintando cenas da vida rural nos arredores de Tóquio, e durante a semana ficava todo o tempo em livrarias, para comprar livros de arte ou “imprimir na memória as imagens dos livros que não conseguia comprar”. Via um livro de Cézanne e ao sair à rua tudo se parecia com a pintura de Cézanne. Via um livro de Van Gogh e a impressão que recebia era ainda mais forte. O mundo se transformava num espaço de formas e cores iguais às da pintura de Van Gogh. A caminho de casa ele se sentia dentro de um quadro de Cézanne ou dentro de um quadro de Van Gogh.

 

Pensou em se dedicar à pintura, expôs alguns trabalhos, entrou para a Liga dos Artistas Proletários, fez ilustrações para jornais e revistas – mas vivia insatisfeito por não conseguir criar uma maneira pessoal de ver as coisas. Começou a duvidar de seu talento para a pintura e a se aproximar do cinema.

 

Mais ou menos nesta época sonhou que entrava num quadro de Van Gogh para perguntar como deveria pintar. O pintor dizia que não tinha muito tempo para falar com ele, que trabalhava pressionado pela luz do sol, que precisava trabalhar como uma locomotiva. O sonho está contado no episódio Os corvos de Sonhei estes sonhos / Konna yume wo mita, filme que abriu em 11 de maio de 1990 o quadragésimo terceiro Festival de Cannes.

 

Também no livro autobiográfico Kurosawa conta como foram seus dois rápidos contatos com o serviço militar. O primeiro foi em 1930. Ele completara 20 anos e fora convocado para o exame de saúde. Era muito magro, talvez porque ficava sentado muito tempo a desenhar. Foi dispensado do serviço militar. Ele se lembra que o oficial que o recebeu mostrou ali mesmo exemplos de exercícios que ele deveria fazer para desenvolver o seu físico desengonçado. O segundo contato com o exército foi em 1945. Ele já era um diretor de cinema. Acabara de fazer seu terceiro filme, preparava a filmagem de outro mais. “Tóquio havia se transformado numa terra de ninguém queimada pelas bombas norte-americanas” quando ele recebeu uma convocação para se apresentar para o serviço militar. No posto a apresentação foi interrompida. O alarme aéreo anunciou novo bombardeio, as bombas caíram ali perto. Ele não voltou a ser chamado.

 

Mais ou menos nesta época – entre a estréia de Sugata Sanshiro parte 2 | Zoku Sugata Sanshiro,  em maio de 1945, e o término da filmagem de Os homens que pisaram na cauda do tigre |Tora no O o Fumu Otokachi –  Kurosawa sonhou que era capitão do exército e encontrava na saída de um túnel o soldado Noguchi, seu comandado que morrera em combate mas se recusava a acreditar que estava morto. O sonho O túnel aparece também em Sonhei estes sonhos.

 

Akira Kurosawa, Tóquio, outubro de 1988

Akira Kurosawa, Tóquio, outubro de 1988

 

Numa conversa em Tóquio, em outubro de 1988, Kurosawa contou que a vontade de fazer um filme a partir de seus sonhos, filme que ele iria
começar a filmar em fevereiro do ano seguinte, nasceu da leitura de um texto de Dostoievski. O que Freud escreveu sobre os sonhos não chegava a interessá-lo: nem a idéia dos quatro mecanismos fundamentais do sonho - condensação, deslocamento, consideração de representabilidade e elaboração secundária – nem as analises contidas em A interpretação dos sonhos, que ele considera “um pouco forçadas”. Mas o que Dostoievski escreveu sobre os sonhos na novela O sonho de um homem ridículo (1877), ao contrário, o deixou entusiasmado desde a primeira leitura. Ele não se lembra com exatidão, talvez tenha lido pouco antes da filmagem de O idiota | Hakuchi (1951). Mas desde a leitura do conto desenvolveu o hábito de anotar os sonhos e guardar algumas destas notas como possíveis idéias de cinema.

 

No conto de Dostoievski o personagem narrador diz que é ridículo desde que nasceu; que na escola, na universidade, quanto mais aprendia mais obrigado se via a reconhecer sua condição de pessoa ridícula; sabia que era ridículo mas passara a duvidar de sua condição de ridículo depois de sonhar um sonho bonito demais para ser sonhado por uma pessoa ridícula; diz que os sonhos são uma coisa muito estranha; que percebemos neles pormenores com uma clareza assustadora, com uma elaboração artística; que os sonhos não os sonha a razão mas o desejo, não a cabeça mas o coração; que os sonhos ultrapassam as leis da razão, o espaço e o tempo; que existe algo tão real num sonho que uma pessoa ao despertar não sabe se apenas sonhou ou se viveu mesmo tudo aquilo; que ao acordar todos têm dificuldade de contar o que se passou durante o sonho: nossa linguagem é pobre para tanto; que se perguntava como teria sido possível que ele tivesse sonhado com o seu insignificante coraçãozinho e sua humilde razão aquilo que viu com seus próprios olhos e que não pode exprimir como foi o que viu.

 

“Sonhos são a expressão de de desejos ardentes que o homem procura dissimular dentro de si mesmo enquanto desperto mas que se liberam enquanto ele dorme, se materializam sob a forma de acontecimentos reais”, disse Kurosawa ao apresentar seu filme em Cannes, “eu, por exemplo, me encontrei com Van Gogh num sonho”. Para o diretor, apesar de sua extravagância, os acontecimentos que vivemos num sonho têm a mesma intensidade e a mesma carga sensorial de uma experiência vivida, porque os sonhos cristalizam nossos desejos mais puros e mais urgentes. O mais surpreendente é a capacidade de expressão desenvolvida por nosso cérebro para dar forma aos sonhos. Quando sonha, todo homem é um gênio, é audacioso e intrépido como um gênio”. É desta genialidade que Dostoievksi nos fala O sonho de um homem ridículo, “ele nos fala da capacidade de invenção de nosso cérebro”, conclui Kurosawa.

 

Quando começou a anotar seus sonhos não pensava em levá-los ao cinema. Só mais tarde começou a se perguntar: “um diretor de cinema não é mesmo uma pessoa que projeta seus sonhos numa tela? Por que não adaptar um sonho que sonhou para a tela em lugar de inventar um sonho conscientemente para ser filmado?”. Fez uma primeira seleção de onze sonhos. Depois, nove. mas finalmente abandonou um deles, Voar, e concentrou-se em oito deles.

 

Akira Kurosawa, desenho para o episódio Voar de Sonhos Akira Kurosawa, desenho para o episódio Voar de Sonhos

Akira Kurosawa, desenho para o episódio Voar de Sonhos Akira Kurosawa, desenho para o episódio Voar de Sonhos

Os desenhos de Voar, episódio não filmado de Sonhos, foram publicados primeiro pelos franceses da revista Vogue, na edição de novembro/dezembro de 1990, e depois pelos italianos da Edizioni Gruppo Abele de Turim, no livro Volare, em abril de 1992. No sonho, o menino Akira com o uniforme escolar caminha sobre uma corda estendida entre dois altos edifícios, perde o equilíbrio, cai, mas é socorrido por um anjo que o toma pela mão e o leva em vôo por um céu escuro e cheio de equações matemáticas, por nuvens coloridas e depois sobre um campo florido. No vôo Akira perde a sombra, que se se afasta dele até o momento em que o anjo o solta no espaço. Akira cai e no campo florido encontra a sombra que havia perdido. Os dois saem felizes com o reencontro. “Uma história impossível, absurda, mas sonhada com uma tamanha intensidade que parecia coisa real e viva de verdade”, comentou o diretor.

 

 

Na conversa em Tóquio Kurosawa não falou dos sonhos que iriam ser filmados. O trabalho ainda iria começar, ele preferiu não dizer grande coisa sobre o que ainda iria ser feito. Disse que não sabe explicar as coisas. Que não tem uma cabeça lógica. Que não sabe analisar ou definir o seu trabalho. Que nem sabe falar direito. Citou apenas o sonho com Van Gogh.

 

Seu antigo sonho de se tornar um pintor, o prazer de desenhar que retornara enquanto ele esperava os recursos para filmar Kagemusha. Ver o filme já em imagens antes de começar a filmá-lo foi uma experiência útil. Mostrar os desenhos aos intérpretes e aos técnicos para orientar a filmagem, foi uma experiência ainda mais útil. O sonho de Van Gogh iria expressar um pouco de seu prazer com a pintura.

 

Em Cannes, Martin Scorsese, que faz o papel de Van Gogh, contou que a experiência de participar de Sonhei estes sonhos durou quatro dias. Três de preparação, um de filmagem, quatro tomadas.

Ele recebera com supresa a carta com o convite. Kurosawa dizia que gostaria de ter o rosto dele para interpretar Van Gogh. Ele realizava Goodfellas, as filmagens estavam atrasadas e nos intervalos lia e relia as quatro páginas do roteiro com o diálogo de sua cena. Concluído Goodfellas num 10 de agosto, no dia seguinte estava no avião para Tóquio e logo para Okaido, para os ensaios de maquiagem – cada um deles trabalho de três horas ou mais, uma cuidadosa inclusão de fios vermelhos, amarelos e alaranjados entre os fios naturais de sua barba. A maquiagem era pesada, cores sombrias em torno dos olhos, manchas azuis, verdes e vermelho-escuro em seu rosto para que ele ficasse bem de acordo com o colorido dos desenhos que Kurosawa lhe mostrara. Na véspera da filmagem, novos desenhos para indicar as expressões que ele deveria fazer. Os gestos deveriam ser intensos, rápidos, ele deveria se mover rapidamente, desenhar rapidamente.

Depois do ensaio no local da filmagem, ele e Akira Terao, o ator que interprerta Kurosawa adulto no filme, fizeram a cena em continuidade para duas câmeras bem distantes do espaço em que eles representavam e que filmavam simultaneamente. Uma das quatro tomadas, foi feita com três câmeras, talvez quatro – com certeza não apenas com duas. Scorsese diz que não sabia quando era filmado em primeiro plano ou não. E que em sua memória permanece o jeito tranquilo, discreto e agil com que Kurosawa se movia ao redor da cena para ir de uma câmera a outra.

 

Maio de 1990: na conversa com os jornalistas em Cannes, Kurosawa lembrou que acabara de fazer 80 anos em março e que em julho seguinte seria comemorado o centenário da morte de Van Gogh.

O diretor se sentia livre como os velhos atores de teatro Nô, que depois dos 80 anos podem improvisar em cena e contrariar as convenções dramáticas muito rígidas desta forma de teatro. Sentia que a vida começa aos 80 e que nesta segunda infância espera chegar mais perto do verdadeiro cinema. Acreditava que Sonhei estes sonhos tinha um ou dois bons momentos de cinema, e disse mais: que o cinema o aproximara da vida, e que por isso, para ele, “viver significa perseguir a beleza do cinema”; que voltaria, ao Japão logo depois do festival para começar a filmar em julho, seu trigésimo filme, Rapsódia de agosto | Hachi-gatsu no kyoshikyoku (1991) sobre a bomba atômica em Nagasaki. Entusiasmado, continuou a falar de Van Gogh e de Os corvos, de seu encontro com o pintor no filme.

 

Comparou a impressão que ele, no Japão, sentiu ao ver as reproduções de Van Gogh com a impressão que o pintor, na Europa, sentiu ao ver reproduções das gravuras do Ukiyo-e de Hiroshige e de Hokusai – em particular a série Vistas incomuns de pontes famosas de nosso país | Shokoku Meikyo Kiran – que inspiraram a pintura da Ponte de Langlois. Lembrou o que o pintor disse da luz e da paisagem de Arles – “é o Japão francês” –  e o que o pintor lhe disse no sonho sobre a luz do sol – “O sol me dá uma compulsão para pintar, não posso ficar aqui conversando com você”.

 

Sonhos de Akira Kuroswa Sonhos de Akira Kuroswa

Sonhos de Akira Kuroswa Sonhos de Akira Kuroswa


No sonho no filme o jovem Kurosawa vê os quadros de Van Gogh num museu, entre eles O campo de trigo com corvos e A ponte de Langlois. Entra neste quadro. Atravessa a ponte e encontra o pintor num campo aberto. Van Gogh ao vê-lo pergunta porque ele não pinta: “Por que não está pintando? Para mim esta cena é incrível”. E continua a falar:

 

Sonhos de Akira Kuroswa Sonhos de Akira Kuroswa

Sonhos de Akira Kuroswa Sonhos de Akira Kuroswa

“Uma cena que parece pintura não dá pintura. Se olhar com atenção você verá que toda natureza tem sua beleza. Quando encontro esta beleza natural eu simplesmente me perco nela. Então, como num sonho, a cena se pinta sozinha. Eu consumo esta cena natural eu a devoro completamente. Quando termino, a imagem aparece completa diante de mim. Mas é difícil segurá-la aqui dentro”.

 

O jovem Kurosawa pergunta como ele consegue, como ele faz para segurar a cena e pintar, e Van Gogh responde que trabakha como um escravo:

Sonhos de Akira Kuroswa Sonhos de Akira Kuroswa

 

“Eu vou ao máximo, como uma locomotiva. Preciso me apressar, o tempo está acabando. Resta pouco tempo para pintar.”

Kurosawa aponta para o rosto de Vang Gogh, pergunta se ele se feriu na orelha e o pintor, sem parar de desenhar, responde:

“Ontem eu tentava completar um auto-retrato. Não conseguia acertar a orelha, então cortei a orelha e a joguei fora”.

Sonhos de Akira Kuroswa Sonhos de Akira Kuroswa

 

Levanta a cabeça para o sol e sai de quadro, depressa, e se perde no meio do campo de trigo. O jovem Kurosawa vai atrás dele.

 

Sonhos de Akira Kuroswa Sonhos de Akira Kuroswa

Sonhos de Akira Kuroswa Sonhos de Akira Kuroswa

Entra nos quadros de Van Gogh, corre à procura do pintor até ve-lo desaparecer no Campo de trigo com corvos.

 

O entusiasmo do diretor pela pintura de Van Gogh existe desde antes do cinema, e seus filmes mais recentes, Dodeskaden (1970), Dersu Uzala (1974), Kagemusha (1978) e Ran, (1984) mostram mais claramente, no colorido da imagem, o que os filmes anteriores, em preto e branco, revelavam apenas na arquitetura e no movimento interno dos planos: há muito de Van Gogh no cinema de Kurosawa.

 

Não se trata de traduzir uma forma, a pintura, numa outra, o cinema, mas de construir uma estrutura ou narrativa cinematográfica em diálogo com a de Vang Gogh – fazer um filme assim como pintor pintava; alterar a cor, a forma, o gesto, para torná-lo mais expressivo e menos conforme. Um cinema como a pintura que saia do impulso de cortar da natureza o que não serve para a natureza do filme, ou do quadro, o que não serve para a expressão. Sonhei estes sonhos torna este diálogo com a pintura de Van Gogh mais fácil de perceber.

 

São oito sonhos adaptados para o cinema. Adaptados, insiste Kurosawa, o filme não é uma transcrição dos sonhos. É uma adaptação de uma obra original, o sonho.

 

Dois sonhos são do tempo de criança: num dia de sol e  chuva o menino Akira desobedece a mãe e vai à floresta ver o casamento das raposas; numa festa da primavera ele encontra os espírito dos pessegueiros em flor.

 

Dois sonhos são do tempo em que o jovem Akira queria ser pintor: o de Van Gogh e o da tempestade de neve na montanha.

 

Um foi sonhado no final da guerra, o do túnel.

 

Três outros sonhados mais recentemente: ele se lembra que sonhou o do monte Fuji derretendo depois de um acidente com uma usina nuclear; mais ou menos deste mesmo período é o dos demônios que choram com dor nos chifres e lamentam serem os únicos sobreviventes de uma guerra.

 

O sonho da festa dos habitantes de uma aldeia de moinhos de água para enterrar uma velhinha de quase cem anos, talvez seja o que foi sonhado há menos tempo, com certeza, Kurosawa se lembra, durante a filmagem de Dersu Uzala ou pouco depois do filme concluído.

 

Estes sonhos que ele viu (ele explica: os japoneses costumam dizer assim, “eu vi um sonho”) em diferentes momentos de sua vida, estão reunidos no filme não para compor uma autobiografia, mas construir “um trabalho mais instintivo, espontâneo, menos controlado”.

 

Durante a projeção, o espectador pode se sentir mais envolvido por um dos sonhos da infância – pela dança das raposas na festa de casamento, por exemplo; ou por um sonho da maturidade – pela dança dos habitantes da aldeia dos moinhos vento, por exemplo; ou ainda pelo canto triste dos demônios que choram com gestos inspirados na coreografia tradicional do Kabuki. Mas é muito provável que na memória, depois desta experiência essencialmente cinematográfica de sonhar o sonho de outro, fique mais viva a recordação do sonho com Van Gogh e do sonho no túnel. O primeiro porque mostra como se constrói a narração. O secundo porque mostra o que está na base da coisa narrada. Os dois resumem como Kurosawa contou suas histórias até aqui e as histórias que contou até aqui. Os dois talvez sejam uma antecipação, um trailer do que será Rapsódia em agosto.

 

O sonho do túnel é assim: O capitão Kurosawa caminha sozinho em direção a um túnel. Um cachorro aparece na entrada do túnel. Rosna e ameaça morder o capitão com sua boca vermelha de muitos dentes.

Sonhos de Akira Kuroswa Sonhos de Akira Kuroswa

Sonhos de Akira Kuroswa Sonhos de Akira Kuroswa

 

A imagem deste episódio é sombria. O sonho se passa ao anoitecer ou em algum lugar de pouca luz, e assim a luz vermelha sobre o cachorro se destaca. O capitão atravessa o túnel e do outro lado percebe que atrás dele vem o soldado Noguchi, uniforme desbotado, pele esverdeada.

Sonhos de Akira Kuroswa Sonhos de Akira Kuroswa

 

Noguchi morreu por culpa dele, Kurosawa, mas não se convence de que está morto. Quer continuar a lutar.

Sonhos de Akira Kuroswa Sonhos de Akira Kuroswa

 

Atrás de Noguchi o pelotão, todos mortos também por culpa do capitão, todos prontos a continuar a lutar, todos contrários à idéia de que estão mortos.

Sonhos de Akira Kuroswa Sonhos de Akira Kuroswa

 

O capitão ordena meia-volta. Os mortos desaparecem no túnel, mas o

Sonhos de Akira Kuroswa Sonhos de Akira Kuroswa

 

cachorro vermelho que rosna ameaçador com seus muitos dentes reaparece.

Sonhos de Akira Kuroswa Sonhos de Akira Kuroswa

 

O capitão fica ali sozinho. Sozinho como o Kenji Watanabe de Viver|Ikiru, história de um escriturário que ao descobrir que vai morrer em breve sofre não com a morte que se aproxima, mas com o fato de em vida ter feito pouco ou quase nada para melhorar as condições de vida de seus iguais.

 

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