A câmera lúcida

 

Juízo de Maria Augusta Ramos

Juízo de Maria Augusta Ramos

 

Mãe severa (“chamam para roubar e você vai?”), a juíza fala como quem repreende o filho que se portou mal (“podia estar lavando um carro, podia estar vendendo uma bala. Mas, não. Está roubando os outros”).

Madrasta (“vocês não têm idade para ser mãe. Agora, arrumaram? Segurem o pepino!”), a juíza repete com ar severo: nada justifica o roubo (“não tem justificativa. Está sem serviço? Vai procurar.”).

Perdeu a paciência com o filho (“teu pai te educou com muita dificuldade e não foi para ser ladrão”). Perdeu a paciência com o filho que perdeu o juízo (“um cara que você nem conhece manda você segura uma arma e você segura”) e sua fala zangada aponta para o pior (“quer morrer? Na hora do pipoco quem vai levar tiro da polícia é você”).

 

Juízo de Maria Augusta Ramos

Juízo de Maria Augusta Ramos

 

O menor (“sim senhora”), franzino, encolhido, baixa a voz (“nós só puxamos e corremos”), engole o que diz (“foi na hora do nervoso”), fala mais com reticências e silêncio que com palavras (“aí... eu encontrei ele nesse lugar.... aí ele me chamou para fazer isso... eu fiquei até meio assim... mas aí, ele falou: ‘vam’bora, embora logo’... aí eu fui”).

 

A cena assim como se vê ensina primeiro a ouvir. Ouvir não só o que se fala na sala de audiências da Segunda Vara da Justiça do Rio de Janeiro, ouvir também os não ditos, as reticências e os silêncios. A cena, assim como se ouve ensina a ver a sociedade como uma fusão de duas imagens, uma dentro da outra, uma presa na outra, no mesmo espaço e no mesmo tempo mas como universos distintos, distantes entre si assim como a favela que está dentro da cidade e simultaneamente fora dela.

 

A juíza pergunta ao jovem infrator se valeu a pena abandonar a família e a escola e ser preso; ele não entende a pergunta e diz que sim, que valeu a pena.

 

O menor beneficiado com L.A. não entende que a Justiça lhe concedeu Liberdade Assistida, foge do Instituto antes de ser libertado e volta a ser preso como fugitivo.

 

O promotor quer saber a idade do menor (“nasceu quando?”) e a resposta absurda vem num tom banal (“não sei”); ele não entende que alguém não saiba o dia de seu aniversário e repete a pergunta (“não sabe sua idade? não sabe o dia de seu aniversário?”). O menor não sabe nem quer saber (“não sei não. 14? 15 anos?”).

 

O jovem diz que pulou o muro da casa para ser preso, não queria roubar nada; a juíza não entende o que ele diz, e o menor explica: queria ser preso porque na prisão poderia ir à escola.

 

Num canto da cela, fora de quadro, conversa a meia voz, dois internos do Instituto Padre Severino se entendem: “Aí, Filipinho: Como é que eu faço? Vou sair daqui. Eu quero comprar um tênis, 450 reais. Eu trabalhando, ganho 350. Vou comprar como? Vou voltar a vender droga. Ou então...”

 

O que se passa na sala de audiências da Vara da Infância e da Juventude (e também o que se vê no Instituto Padre Severino e na favela, mas especialmente o que se passa na sala de audiências) sintetiza num teatro vivo o mecanismo social que produz o menor infrator. Na audiência  – isto é: na audiência assim como vista pela câmera –  é possível perceber não apenas a infração em julgamento como também a desigualdade social que conduz à vontade de roubar qualquer coisa ou de vender drogas para comprar o tênis que custa mais que o salário mínimo. Firme e atenta por trás do menor acusado, de frente para a juíza e para o promotor, ao lado do defensor público, a câmera não perde de vista o que de fato a audiência documenta: a impossibilidade de diálogo; a língua parece a mesma, mas as palavras se referem a realidades e experiências diferentes.

 

Promotor, réu, defensor, juiz, inspetor, ninguém tem certeza de entender o que acabou de entender. Que fazer? Como segurar o pepino? Que fazer com o infrator que fugiu do instituto depois de ser declarado em liberdade e trabalha como engraxate para sustentar o filho? Que fazer com o menor que na casa pobre da favela voltará a se envolver com o tráfico? Que fazer com o menor que prefere permanecer internado a voltar para casa? Que fazer com o menino que roubou uma bicicleta ou com a menina-mãe que roubou uma câmera fotográfica?

 

Que fazer? – sugere o filme – primeiro olhar de frente, encarar a questão assim como faz a câmera.

 

Na sala, cena teatral, espelho da sociedade, a juíza aparece como uma imagem-síntese das diversas mães que passam pelas audiências. Existe nela um pedaço da mãe que chora diante da filha que não quer voltar para casa (“é muita função em cima de mim sozinha, eu tenho que fazer o papel de mãe e de pai, dar carinho, dar amor e corrigir”). Existe nela um pedaço daquela outra mãe que diz só com um leve aceno de cabeça que não tem como sair com o filho da favela em que mora. E ainda, da mãe que conta que o filho era surrado pelo pai todo dia (“ele batia de cinto nele, todo dia, chegou a quebrar a fivela, ele até desmaiou, por duas vezes ele desmaiou”). Ela é também  um pedaço das muitas mães que no Instituto Padre Severino abraçam os filhos num silêncio triste arranhado pelo barulho abafado do galpão em que todos se reúnem nos dias de visita. A juíza é a autoridade que fala de modo claro e absolutamente firme, que perde a paciência com a menina muito mimada e com a outra que se tornou mãe antes de deixar de ser menina, e também a que quase se cala diante do menor que matou o pai a facadas.

 

A cena na sala de audiências ensina a ouvir as entrelinhas e silêncios e a ver o fragmento de realidade documentado como cena de cinema  – imagem que se refere não só ao que está ali visível: como todo quadro de cinema, a cena assim como se ouve e se vê ensina a ver o fora-de-quadro. De repente, a câmera toma o ponto de vista da juíza e o espectador se vê diante do menor interrogado  – o que roubou uma bicicleta, o que puxou a máquina do turista, o que não quer voltar para casa, o que participou de um assalto a mão armada, o que pulou o muro para ir à escola, o que matou o pai. É como se a metade que somos na fusão que nos compõe saísse de dentro de si mesma para ver a outra metade cara a cara.

 

O que Juízo de Maria Augusta Ramos propõe ao espectador é exatamente isso.

 

A solução é aparentemente simples: a identificação de menores infratores é vedada por lei e por isso eles são representados por jovens não-infratores. Eles repetem para a câmera o que os jovens infratores disseram na audiência em resposta às perguntas de juízes e promotores. Intérpretes, mas não exatamente atores: são jovens que vivem em condições sociais semelhantes àquelas dos que vemos julgados e internados ao Instituto Padre Severino. Estes jovens intérpretes recitam os textos e reconstituem a cena a partir da direta experiência de vida de cada um deles e não de um metódico trabalho de ator.

 

Diante deles o espectador é solicitado a estabelecer uma outra relação com a imagem: juízes, procuradores, defensores, inspetores, familiares, as pessoas reais filmadas na Justiça e no Padre Severino, são percebidos como fragmentos de realidade usados, digamos assim, para montar uma ficção que ultrapassa o simples reconhecimento da ação e de registro do real se transforma em representação, em composição cinematográfica, em última análise em ficção.

Os menores que repetem as respostas dos outros menores, infratores, no julgamento real, os menores que falam de frente para a câmera, são percebidos como um fragmento de ficção usado para, digamos assim, perder toda a carga de ficção que possui. A ficção, sem deixar de ser o que é, cena, encenação, ficção, deixa de ser o que é: ela se transforma num registro vivo, documenta a realidade do jovem que interpreta. Na imagem os jovens atores são os infratores que interpretam e também, e principalmente, eles mesmos.

 

Uma coincidência feliz traz aos cinemas quase ao mesmo tempo dois documentários que alternam depoimentos das pessoas que viveram de verdade os fatos narrados com a reconstituição ou repetição de todo o depoimento ou de parte dele por intérpretes: pouco antes de Juízo tivemos Jogo de cena, de Eduardo Coutinho. Coincidência feliz para o melhor entendimento de um e de outro filme e para o entendimento da expressão cinematográfica além das questões particulares que cada um destes filmes discute. No filme de Eduardo Coutinho, atrizes. De quando em quando elas representam, de quando em quando falam delas mesmas, como as demais mulheres filmadas pelo diretor. Contam uma história. Aqui e ali contam como uma atriz constrói seu personagem. Com um certo exagero talvez seja possível dizer que o filme de Coutinho é principalmente sobre as atrizes, sobre a representação. As pessoas reais filmadas são a matéria bruta elaborada adiante pelas atrizes ou são exemplos de representações espontâneas.

 

Juízo de Maria Augusta Ramos

Juízo de Maria Augusta Ramos

Juízo de Maria Augusta Ramos

 

No filme de Maria Augusta Ramos, ao contrário do que ocorre em Jogo de cena, os intérpretes não são atores ou atrizes. E também com um certo exagero talvez seja possível dizer que o filme é mais um documentário sobre eles do que sobre os jovens infratores de verdade vistos de costas na sala de audiências, no refeitório e na sala de visitas do Instituto Padre Severino. Os meninos e meninas que vemos de frente para a câmera pertencem ao mesmo fora-de-quadro das meninas e meninos que vemos de frente para juízes e promotores. Os jovens intérpretes vivem tão confinados, tão à margem da sociedade quanto os que de fato são julgados nas audiências. Isto é o que revelam enquanto encenam, reconstituem, contam (esta, talvez a palavra exata: contam) o que outros meninos e meninas iguais a eles viveram na sala de audiência ou nas celas do Instituto. Contam para uma câmera discreta e firme, toda ouvidos, olhos nos olhos deles, como os juízes recomendam que eles tenham juízo (“Você não tem direito de roubar bicicleta de ninguém. Nem bicicleta nem nada de ninguém”), como os inspetores dizem que eles devem andar na linha (“Baixa a cabeça! Todo mundo. Em linha. Acabou de comer, baixa a cabeça!”).

 

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