Cinco perguntas feitas depois
de conhecidas as respostas

[Fazer cinema, fazer arte em geral, não é mesmo um modo de propor respostas que provocam ou se antecipam às perguntas?]

Histórias que só existem quando lembradas, de Júlia Murat

Histórias que só existem quando lembradas, de Júlia Murat

1.

O pote, o prato, as latas, o cesto, o lampião sobre a mesa: Histórias que só existem quando lembradas começa suave e pequenina como a luz que vem lá do fundo da tela escura na primeira imagem: quase nada acontece enquanto as mãos de uma mulher passam um pano para limpar a mesa, ou trabalham a farinha para fazer o pão. No começo, ação quase nenhuma, o que vive de fato é a fotografia.  E essa é uma imagem que se repete, uma luz suave surge lá de trás num fundo escuro como o de um laboratório fotográfico. A jovem que adiante entra na história é uma fotógrafa. Desse modo, a ideia do filme veio de uma fotografia? Ou processo narrativo do filme se inspira na fotografia? Como foi o trabalho com o fotógrafo para o desenho do quadro e da luz sobre a cena?    

  

2.

O quadro metade a linha de trem que sai do meio da mata, metade a linha de casas velhas na rua de terra batida e logo, o pão arrumado no armário por trás do balcão, o silêncio quebrado pelos sinos da igreja, o café com pão no banco na porta da tenda antes da missa. Muito do tempo da cidade quase sem vida em que se passa a história de seu filme lembra o tempo das cidades que você visitou ao filmar Dia dos pais. Esse documentário foi feito em parte como uma pesquisa de locações para sua primeira ficção?  A busca revelou algo mais que as locações, no sentido de sugerir personagens ou um tempo narrativo que não existiam antes? Os locais visitados no documentário correspondiam aos imaginados para a ficção? Ou a ficção se fez inspirada nas paisagens, cidades e pessoas reais encontradas no documentário?   

 

3.

A missa depois do pão nosso de cada dia, o cemitério com o portão trancado e a advertência no muro, “entrada proibida”, sugerem uma montagem, campo e contracampo, de uma imagem influenciada pela igreja com outra influenciada por uma vontade jovem de viver   sem compromissos. É possível ver o cemitério trancado como uma metáfora de algo que é só dos velhos habitantes da cidade e de uma outra coisa que é só da jovem recém-chegada – o cadeado para eles, a placa para ela? É possível ver a cozinha iluminada só por uma luz alaranjada como um modo de sugerir que fazer o pão é como revelar uma fotografia? É possível ver o pedido para que a jovem fotógrafa aprenda a fazer o pão como um apelo a que ela se prepare para a idade madura?

 

4.

De noite, silêncio e cantarolar de grilos, dois jovens bebem cachaça e falam a meia voz, sentados na rua. Quase um diálogo, quase dois monólogos: “Eu fico o dia inteiro ouvindo esse som”, diz um deles. “Eu nunca ouvi tanto silêncio”, comenta o outro. De manhã, silêncio e um cantarolar suave de piano, dois velhos tomam café sentados da calçada e de novo um quase diálogo: “Estou com medo de morrer”, diz um deles. “Então não morre”, responde o outro, “você pode viver o quanto quiser”. Uma pausa, e a pergunta: “Por que você não morre também?”. Uma pausa maior, grande o bastante para que se esqueça a pergunta e a resposta apareça como frase solta: “Não sou infeliz o suficiente”. Com frequência as falas parecem ruído ou música, enquanto a música e os ruídos parecem mais falas que qualquer outra coisa. Como foram escritos os diálogos e como foi pensado o modo de recita-los? Algo aprendido na observação do modo de falar dos personagens reais de Dia dos pais?

 

5.

Ao longo da preparação do projeto, em diferentes versões do roteiro, a história permaneceu basicamente inalterada, mas recebeu diferentes títulos, como se cada um deles indicasse um novo ponto vista para a compreensão dos fatos narrados (Que os velhos mortos cedam lugar aos novos mortos, foi um dos títulos pensados para o filme. O peso da massa e a leveza do pão, foi outro). Como encontrou o título final, Histórias que só existem quando lembradas?  E o que essa imagem-título (especialmente como desenhada no letreiro, desintegrando-se pouco a pouco em pó) sublinha na história que você conta?

 

 

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