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Coisas que esqueci, mas
que não me saem da memória

[nota escrita para jornal e publicada em setembro de 1996]

 

Isabelle Huppert e Martin Donovan: Amateur de Hal Hartley

Isabelle Huppert e Martin Donovan: Amateur de Hal Hartley

 

Amateur. O título do quarto longa metragem de Hal Hartley (e a história contada nele, e o jeito de contá-la) talvez seja a melhor maneira de se aproximar do diretor.            

Num momento em que os cinema europeus (e não só eles) procuram com freqüência imitar os modelos de produção e de narração da indústria audiovisual norte americana, veste a fantasia de filme norte-americano para tentar enfrentar este competidor econômica e politicamente mais forte que controla todo o mercado e asfixia as cinematografias nacionais, bem neste momento um norte-americano (como Allen, como McBride, e como Hartley) interessado em dialogar com as dramaturgias européias parece, antes de mais nada, um amador.

 

Amateur. Um que trabalha movido mais pela intuição do que pelo que determina o mercado. Amateur, bem assim, palavra que pode ser lida em inglês e em francês. Um que trabalha a partir do que o cinema europeu (lá pelos anos cinqüenta, de olho em alguns diretores de Hollywood) inventou e passou a chamar de cinéma d’auteur.

Trata-se de procurar no cinema europeu um exemplo de invenção mais livre (porque a pressão da indústria audiovisual norte-americana asfixia também internamente). E nesta conversa com o outro abrir um diálogo interior, recuperar algo que ficou perdido na memória. Na verdade, o diálogo com o cinema europeu se realiza num espaço bem preciso. Hartley vai apanhar na Europa aquilo que o cinema europeu (a Nouvelle Vague francesa da década de 1950, por exemplo; e depois dela o novo cinema alemão das décadas de 1960 e 1970, por exemplo) veio buscar na América.

 

O título, a história - o encontro de Thomas (Martin Donovan), que perdeu a memória, com Isabelle (Isabelle Huppert), a ex-freira que para sobreviver escreve histórias para uma revista pornô  –, mais o jeito de contar a história  levam o espectador a agir como quem, como Thomas, recupera a memória ou quem, como Isabelle, inventa uma história ligando o que vê com o pouco que tem na memória. Tudo em Amateur (1994) e, a rigor, também em outros filmes de Hartley (Trust, 1990,  e Simple Men, 1992, por exemplo), parece resultar de uma espécie de diálogo de espectadores ou de um esforço para livrar-se da amnésia.

 

Um cinema de espectador, um cinema de memória. Conscientemente ou não, pouco importa, os filmes de Hartley brincam com a condição do espectador no instante da projeção. Brincam assim como Allen, que inventou em Zelig o personagem-espectador por excelência, o que se transforma todo o tempo para ser o que a imagem solicita dele. Ou como (brincadeira mais erudita, mais requintada) Godard e Resnais vêm fazendo em seus filmes que conversam sobre a memória.

 

[histórias de personagens que perdem a memória, que têm dupla personalidade, que em lugar de agir se comportam dentro da cena como testemunhas da história, que tem algo com a visão raio-X do Super Homem ou que são visionários como o cego Tirésias, são comuns no cinema porque jogam essencialmente com a condição do espectador durante a projeção de um filme: dizem como é que ele se dá conta do que vê na tela do cinema, dizem que tudo o que ele viu continuam esquecidas na memória.]
 


Os filmes de Hartley s ão assim talvez porque o realizador para se sentir mais realizador parte de uma atitude de espectador de filmes europeus que por sua vez partiram de uma atitude de espectador de filmes norte-americanos. Ou porque para ele o que de fato importa seja estabelecer um diálogo de espectadores.

 

Num filme, quando começa um filme no cinema, o espectador é assim como Thomas, indivíduo sem memória. Ou talvez ainda menos que isso: é uma sensibilidade toda amnésia guiada só pela intuição, pelo um impulso de ver/ouvir histórias e de se projetar emocionalmente no mundo da história contada. Diante do filme de Hartley, enquanto se diverte com a narrativa, antes de (ou mesmo sem se) dar conta do mecanismo que organiza a narração, o que de fato o espectador sente, o que torna a diversão especialmente divertida, é a sensação de estar ali diante de um narrador que é como ele, alguém que parece gostar mais de cinema que de qualquer outra coisa – noutras palavras, um amateur

 

> ver também sobre o diálogo entre o cinema norte-americano e o europeu:
A rosa púrpura de Berlin
e sobre o personagem que mais testemunha que age em cena:
A janela discreta do espectador

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