Geraldine Chaplin, Elia vida mia de Carlos Saura

Geraldine Chaplin, Elia vida mia de Carlos Saura

Geraldine Chaplin, Elia vida mia de Carlos Saura

Elisa, vida mia, de Carlos Saura

 

 

 

A hora do lobo | Vargtimmen de Ingmar Bergman

A hora do lobo, de Ingmar Bergman

 

 

 

 

 

 

Elisa na hora do lobo

[nota critica escrita para jornal e publicada em 14 de julho de 1981]

 

Geraldine Chaplin, Elisa, vida mia de Carlos Saura

Geraldine Chaplin, Elisa, vida mia de Carlos Saura

 

O cartaz original de Elisa, vida minha (Elisa, vida mia, 1977), seis imagens em que um rosto de uma pessoa é formado com a montagem de parte da face de Fernando Rey e parte da face de Geraldine Chaplin, funciona como um meio de colocar o espectador dentro da atmosfera do filme. O cartaz é quase um resumo do que se passa na tela. Quando o filme começa nos vemos ou diante da história de um só personagem vivido por dois diferentes intérpretes, ou diante de dois diferentes personagens que vivem a mesma história.

 

[O cartaz lembra uma imagem de Ingmar Bergman em Persona, 1966, a figura formada pela metade do rosto da enfermeira Alma, interpretada por Bibi Andersson, e pela metade do rosto da atriz Elizabeth Vogler, interpretada por Liv Ullmann. O rosto metade de uma metade de outra vem no trecho final do filme: Alma descobre que Elizabeth esconde uma foto do filho, pede que ela fale da criança e a atriz, que perdeu a voz ou se recusa a falar. Elizabeth move a cabeça para indicar que não iria falar e a enfermeira então decide falar pela atriz. O monólogo de Alma é filmado uma primeira vez com a câmera no ponto de vista dela, olhos fixos em Elizabeth. E repetido, com a câmera no ponto de vista da atriz, olhos fixos em Alma. Ao final da repetição, o rosto metade Elizabeth metade Alma.

Imaginemos: é possível que os personagens centrais de Elisa, vida mia tenham surgido de um diálogo de Saura com esta imagem de Bergman; que esta imagem tenha de algum modo sugerido um filme em que um personagem fala com a voz do outro.

Não é a primeira vez que Saura dialoga com Bergman: Ana y los lobos, 1973, tem algo de A hora do lobo, Vargtimmen, 1968. E Elisa, vida minha lembra também este filme de Bergman no instante em que a personagem interpretada por Geraldine Chaplin tira a pele do rosto, tal como uma personagem de A hora do lobo, durante uma recepção, para melhor ouvir a música, tira o chapéu e em seguida arranca a pele do rosto.

Mais suave a imagem de Saura: Elisa tira de fato a fina película de uma máscara de beleza do rosto, mas sem maiores explicações, para o espectador perceber apenas o que parece à primeira vista, que ela tira a pele do rosto.

Mais incômoda a imagem de Bergman: a velha senhora arranca a pele enrugada da cara com um ruído de alguma coisa arranhada, como um ruído de película de borracha que se esgarça. E logo depois de tirar o chapéu e a pele do rosto, a personagem de A hora do lobo tira também os olhos, que deposita num copo de água.

Este diálogo Bergman-Saura é na verdade uma conversa de um e outro com a experiência surrealista, retrabalhada pelo diretor sueco nos dois filmes citados e pelo diretor espanhol em quase todos os filmes que realizou na década de 1970.]

 

Elisa, vida mia de Carlos Saura

 

Sobre a imagem de uma estrada de terra batida, um carro avança ao longe em direção à câmera. Ouvimos um texto lido por uma voz de homem mas aparentemente escrito por uma mulher. Quem fala, neste instante é Elisa. Ela nos conta como soube da doença do pai e como decidiu visitá-lo, um pouco para vê-lo depois de longa ausência, um pouco para se afastar de mais uma de suas crises matrimoniais. Quem fala é Elisa, mas a voz que diz o texto de Elisa é de Don Luís, seu pai.

 

(E aqui cabe uma observação entre parênteses com relação à cópia usada no lançamento do filme entre nós: a legenda, neste momento e em dois outros, meio perdida na confusão das vozes, traduz erradamente, situa a fala no masculino ou no feminino de acordo com a voz do leitor, e não de acordo com o texto lido).

 

Um pouco adiante a situação se inverte, Elisa lê um texto originalmente escrito pelo pai ou para o pai. Logo a primeira situação se repete, a voz de Fernando Rey lê um texto feito para a personagem de Geraldine Chaplin. E de novo Geraldine diz um texto feito para o personagem de Fernando Rey. Ou um texto já lido é retomado, mas agora na voz que realmente lhe corresponde. A ação assim traduzida em palavras pode sugerir uma certa confusão que realmente não existe no filme. Esta troca de vozes ou de personagens não é feita para tornar a história mais complicada, mas ao contrário para torna-la mais simples, para permitir a repetição das idéias básicas do filme e apresentá-las numa atmosfera mágica.

 

Se o espectador a princípio se confunde com a voz de um homem falando de sua visita ao pai doente e de seu fracassado casamento com Antônio, não faz mal. Isto faz parte da atmosfera um tanto surrealista em que as coisas acontecem. Um surrealismo especialmente eficaz porque para cada coisa assim meio estranha, meio sem lógica ou sem sentido, Carlos Saura sugere uma razão imediatamente reconhecível. Se o espectador preferir seguir o filme como um relato realista poderá encontrar explicações satisfatórias para as vozes trocadas: Don Luís escreve um livro biográfico e toma a crise do casamento da filha como um dos temas. A filha lê parte dos relatos biográficos. Acompanhar a história como uma narração realista conduz também a explicações simples para qualquer ação que pareça absurda: são sonhos ou coisas imaginadas por Elisa.

Elisa, vida mia de Carlos Saura

 

Uma destas situações em especial exemplifica bem o jogo de ilusões de ótica armado no filme. É aquela em que Elisa aparece deitada em casa do pai, que no quarto ao lado lê um livro e ouve um dos estudos para piano de Erik Satie. No instante seguinte, ao se levantar da cama, Elisa está na casa em que vivera quando criança, na porta da sala onde a família se reúne, e olha sorridente para ela mesma, criança brincando ao lado da irmã.

 

Elisa, vida mia, de Carlos Saura

 

Elisa vida mia, de Carlos Saaura

 

Elisa, vida mia de Carlos Saaura

Numa noite de insônia, Elisa abre a porta da sala e encontra a família reunida como num álbum de fotos de família – foto viva: a mãe no sofá faz tricô e Elisa criança sentada no tapete com a irmã, se volta para Elisa adulta e sorri para ela: Elisa vida mia de Carlos Saura.

 

Não importa saber se isto foi ou não um sonho da personagem. Muito menos importa agir assim como o marido da irmã de Elisa: ele interrompe a cunhada que contava um sonho para explicar que ela sonhara com um terremoto e não com qualquer coisa misteriosa. Não importa traduzir para a razão o sonho de Elisa, vida minha, nem importa tirar dele um significado preciso, mas vivê-lo. Há uma espécie de emoção, ou prazer, ou uma simples satisfação visual, ou uma representação de um sentimento impossível de ser sentido sem o cinema, na imagem em que  Elisa adulta encontra Elisa menina, uma olha para outra, uma sorri para a outra, vivendo (vi-vendo: é bem a palavra) aquele tipo de emoção especial que qualquer pessoa tem diante de uma foto antiga, em que apareça jovem e sorridente - vivendo de modo radical a experiência de encontrar-se diante do que foi outrora, numa foto que não se parece com ela ou numa criança igual à que ela foi um dia. Aí, neste trecho do filme é como se Elisa folheasse um álbum de fotografias em movimento.

 

A estrutura narrativa do filme se apóia nesta idéia, e por isso mesmo como uma espécie de indicação para orientar o espectador, os personagens fazem comentários sobre litografias. Isabel, irmã de Elisa, diz que as fotografias a assustam um pouco exatamente por isto de uma pessoa se descobrir de repente diante de si mesma muito tempo atrás. Don Luís confessa a Elisa que detesta  fotografias com pretensões artísticas, e se delicia apenas com aquelas feitas em família, sem qualquer cuidado particular além de registrar a pessoa diante da máquina.

 

A narração é como uma fotografia antiga, imagem a um só tempo bastante real e bastante absurda porque ou estamos ali num outro tempo e dimensão ou o tempo e dimensão outra estão ali onde nos encontramos. O filme acumula situações detalhadas mas evita encaixá-las numa organização linear, cronológica, lógica. São imagens soltas sem continuidade, sáo ações ambientadas num espaço mágico e meio fora do mundo  – a casa de Don Luís é como um álbum de velhas fotografias. E a narração é assim, descontínua, porque os personagens centrais, ou o duplo personagem central, é alguém que decidiu romper com a continuidade de sua vida.

 

Fernando Rey, Elisa,vida mia de Carlos Saura

 

“Viver desgasta”, comenta Don Luís, e comenta também Elisa. “A gente se ocupa de pequenas tarefas sem sentido, mas que servem para dar alguma significação à luta em busca do bem-estar, até que uma tarde descobre que estas tarefas não interessam mais”, comenta Elisa e comenta também Don Luís. Ê preciso, então, mudar de vida. Ou perguntar se sabemos viver. Como sublinha Don Luís numa página de um livro (o que lê na cena em que Elisa ao abrir a porta da sala se encontra com ela mesma quando criança que sorri para ela como uma foto antiga animada e viva): 

 

Elisa, vida mia de Carlos Saura

 

“¿Es posible que a pesar de las invenciones y progresos, a pesar de la cultura, la religión y el conocimiento del universo se haya permanecido en la superficie de la vida? ¿Es posible que se haya, incluso, recubierto dicha superficie – que después de todo, aún habría sido algo:– que se haya recubierto de un tejido increíblemente aburrido, que le hace parecerse a muebles de salón en vacaciones de verano?  Si, es posible”.

 

É com este sentimento que o filme começa e em torno deste sentimento é que ele dá voltas. Esta é a situação vivida pelos personagens, Elisa e Don Luís, e também pelo filme como um todo. Ele procura levar ao espectador não uma análise, não um juízo ou um conceito em torno desta meio insatisfação meio desesperança, mas sim a uma imagem desta vontade contraditória de mudar de vida, mudar de cara e ao mesmo tempo permanecer imutável como uma fotografia. Elisa tira a pele do rosto mas continua Elisa.

 

 

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