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De Hiroshima a Fukushima

Rapsódia em agosto de Akira Kurosawa

 

Rapsódia em agosto de Akira Kurosawa

 

Rapsódia em agosto de Akira Kurosawa

Rapsódia em agosto de Akira Kurosawa

Rapsódia em agosto, de Akira Kurosawa

1.

Todos de olhos no Japão, em torno do terremoto, tsunami e acidente nas usinas nucleares de Fukushima, lembremos que, talvez, tudo tenha começado no agosto em que os japoneses viram um gigantesco olho no céu de Nagasaki – ou mesmo um pouco antes – e que o medo da bomba e da destruição do país gerou uma série de filmes sobre desastres e um personagem para representar o medo, o monstro que nasceu de uma explosão nuclear, Godzilla.

2.

Na metade da década de 1970, quando a Toho Films produziu A submersão do Japão (Nippon Chinbotsu, de Shiro Moritani, 1974), filme em que o Japão é tragado por um gigantesco tsunami, Hollywood dedicava-se a produzir Disaster movies, pequenos melodramas pessoais situados dentro desastres de toda ordem: enormes incêndios, maremotos, acidentes aéreos, terremotos. Por isso, a Toho realizou paralelamente à versão japonesa (duas horas e meia) uma outra, reduzida (cerca de 90 minutos), para os Estados Unidos e para os países europeus com mercados controlados por distribuidoras norte-americanas. Para a versão internacional, cenas com personagens americanos em Tóquio foram filmadas por Andrew Meyer. 

[Entre outros Disastser movies, citemos: Aeroporto (Airport, de George Seaton, 1970), O destino do Poseidon  (The Poseidon Adventure, de Ronald Neame, 1972), Inferno na torre (The Towering Inferno, de John Guillermin, 1974), Terremoto(Earthquake, de Mark Robson, 1974), Aeroporto 1975 (Airport 1975, de Jack Smight, 1974) e O dirigível Hinderburg (The Hindenburg, de Robert Wise, 1975). Andre Meyer: produtor e diretor  norte-americano, autor  de quatro filmes realizados entre 1970 e 1974, todos  aventuras fantáticas.]


A submersão do Japão
não teve distribuição comercial no Brasil, mas foi exibido, na versão japonesa ou na versão americanizada, pelo menos na França (La submersion du Japan), na Espanha (El hundimiento de Japon), na Alemanha (Panik über Tokyo), e nos Estados Unidos (Tidal Wave). Fragmentos e trailers do filme de Moritani, ou da versão codirigida por Meyer, ou ainda de uma nova versão, feita em 2006 por Shinji Higushi (e, como a primeira, baseada no livro de Sanyo Komatsu, Nippon Chinbotsu) apareceram no Youtube em seguida ao recente terremoto e tsunami que atingiram a central nuclear Fukushima Daichi.

 

3.

Na metade da década de 1950, ao mesmo tempo em que se dedicava a Os sete samurais (Schichinin no samurai, de Akira Kurosawa, 1954), a Toho Filmes produziu um filme de pequeno orçamento sobre um monstro criado pelas explosões atômicas: Godzilla (Gojira, de Inoshiro Honda, 1954). O monstro era um gigantesco gorila-baleia (o nome Godzilla, em japonês, resulta da montagem das palavras gorila e baleia), que saía do mar para destruir a cidade de Tóquio. O sucesso dessa ficção, ao mesmo tempo uma representação do medo da destruição pela contaminação atômica e por um tsunami, levou a Toho a produzir logo um novo filme com o monstro: Godzilla ataca de novo (Gojira no Gyakushu, de Motoyoshi Oda, 1955). E a produzir também um filme de Akira Kurosawa que dialoga com Godzilla (ou pelo menos com o medo que criou o monstro: os testes atômicos realizados pelos Estados Unidos no atol de Bikini, depois das bombas sobre Hiroshima e Nagasaki; os testes realizados pela Inglaterra e pela União Soviética). Anatomia do medo (Ikimono no Kiroku, 1955) conta a história de um homem que, em pânico diante da ameaça de destruição do Japão numa explosão atômica, tenta convencer a família a mudar-se para o Brasil.

O terceiro filme do monstro, dirigido por Inoshiro Honda, além da versão japonesa, Godzilla, rei dos monstros (Kaiju-ô Gojira, 1956), teve uma versão para os Estados Unidos, Godzilla King of Monsters!, com cenas adicionais em que um repórter americano investiga uma série de naufrágios na costa japonesa depois dos testes atômicos em Bikini.3 Vieram em seguida King Kong versus Godzilla (Kingu Kongu tai Gojira, 1962) e Mosura versus Godzilla (Mosura tai Gojira, 1964). A partir de Ghidorah, o monstro de três cabeças (San Daikaju: Chikyu Saidai no Kessen, 1964), Godzilla aparece às vezes como uma ameaça de destruição, às vezes como um aliado na luta contra outros monstros. Atualizava-se a figura criada para representar a ameaça de destruição pela radiação ou por um tsunami: Tokai, a primeira usina nuclear do Japão, estava em construção e em 1966, dois anos depois de Godzilla enfrentar o monstro de três cabeças, começaria a gerar energia.


[O cinema norte-americano formulava, então, uma espécie de contracampo do gigantesco Godzilla com O incrível homem que encolheu(The Incredible Shrinking Man, de Jack Arnold, a partir de uma história de Richard Matheson, 1957) que foi encolendo até sumir de todo, vítima de uma nuvem radioativa enquanto pescava em alto mar.]

 

Entre 1954 e 1994 foram produzidos no Japão mais de 30 aventuras de Godzilla, além de versões especiais para os mercados europeu e norte-americano. O último dos nove dirigidos por Inoshiro Honda foi feito em 1977, com participação italiana e codireção de Luigi Cozzi. Mas aind hoje, dentro e fora do Japão, para cinema e para televisão, continuam a ser produzidos filmes com o monstro que surgiu do mar depois de uma explosão atômica – agora mesmo um remake norte-americano, dirigido por Gareth Edwards, encontra-se em produção e tem lançamento previsto para julho de 2012. Os sete samurais, Godzilla, Anatomia do medo e A submersão do Japão têm em comum a presença de um mesmo colaborador no roteiro, Shinobu Hashimoto.

 

[Hashimoto trabalhou com Kurosawa em Rashomon (1950), Viver (Ikiru, 1952),
Trono manchado de sangue (Kumono-su-jo, 1957), A fortaleza escondida(Kakushi Toride no San-Akunin, 1958),  Homem mau dorme bem (Warui Yatsu Hodo Yoku Nemuru, 1960)
e Dodeskaden (1970).]

 

Em 1991, para lembrar a bomba atômica sobre Nagasaki em Rapsódia em agosto (Hachi-gatsu no Kyoshikyoku) Akira Kurosawa chamou para colaborar como assistente de roteiro e direção Inoshiro Honda, o inventor da figura-síntese do medo do terremoto, do tsunami e da explosão atômica. Ele e Kurosawa inventaram uma outra imagem da bomba: o olho gigante que explode no céu de dentro do cogumelo atômico.

Godzilla, mesmo sem estar na tela, continua a ser a imagem-pesadelo presente nas histórias dos filmes japoneses feitos depois de Hiroshima e antes de Fukushima.

 

 

 

 

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