Roxana Blanco, Matar a todos
de Esteban Schroeder

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pior que saber, só mesmo não saber

  [Rio, 6 de janeiro de 2008]

Condor, de Roberto Mader

Condor de Roberto Mader

Roxana Blanco, Matar a todos de Esteban Schroeder

Matar a todos, de Esteban Schroeder

 

Em agosto de 2007, no festival de Gramado, Condor, de Roberto Mader; em setembro, no Festival de San Sebastián, Matar a todos, de Esteban Schroeder. Um documentário brasileiro e uma ficção uruguaia colocaram a Operação Condor em tela três meses antes dela ganhar amplo noticiário em dezembro com a divulgação pela internet de documentos e fotos do período da ditadura do general Alfredo Stroessner no Paraguai e com os mandados de prisão expedidos pelo juiz Giancarlo Capaldo, 140 ao todo, contra os responsáveis pelos governos militares e pelos chamados serviços de inteligência da Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai, por conta do desaparecimento de 25 cidadãos de origem italiana durante a Operação Condor.

 

Dois filmes apoiados numa estrutura dramática bem simples e empenhada em levar ao espectador fatos pouco ou nada conhecidos.

 

Condor se propõe como uma reportagem, reúne documentos e realiza entrevistas para tirar a Operação Condor do silêncio criado em torno dela, para tirar o passado do esquecimento. “Não podemos pensar no futuro sem recuperarmos o passado” diz Lilian Celiberti vítima de um dos mais conhecidos episódios da Operação no Brasil: em novembro de 1978 ela e Universindo Dias foram seqüestrados em Porto Alegre e levados para uma prisão no Uruguai. A frase de Celiberti é uma síntese das intenções do documentário de Roberto Mader.

 

Matar a todos repete um modelo muitas vezes usado em filmes sobre a memória da segunda guerra mundial: o espectador é convidado a seguir a ação ao lado do personagem que investiga um pedaço esquecido ou intencionalmente oculto do passado. Neste filme uruguaio, ao investigar o seqüestro em Montevidéu de um químico chileno procurado pela justiça internacional pelo envolvimento em crimes da ditadura Pinochet, a advogada Julia Gudari descobre que seu pai, um general da reserva, e o irmão, Ivan, também militar, participaram da Operação Condor, ação conjunta das ditaduras latino-americanas para a eliminação de seus opositores.

 

No festival de San Sebastián, ao lado de Matar a todos, um filme canadense com esta mesma forma de composição procurou mostrar quão próximo se encontra o passado distante e o quanto o desconhecimento do passado torna o presente difícil de viver: Emotional Arithmetic, de Paolo Barzman (2007), narra o reencontro de Jakob Bronski com Melanie e Christopher, duas crianças que ele salvara da morte quase 50 anos antes no campo de concentração de Drancy, na França. Max von Sydow interpreta Bronski com poucas palavras, gestos lentos e inseguros bem parecidos com os que Armin Mueller Stahl deu vida ao migrante húngaro Mike Lazlo em Music Box de Costa-Gavras (1989). E Jessica Lange interpreta a filha de Lazlo, a bem sucedida advogada norte-americana Ann Talbot, no filme de Costa Gavras assim como Roxana Blanco interpreta Julia Gudari no filme uruguaio – são personagens da mesma família, pertencem ao mesmo universo dramático, solicitam uma atuação semelhante, os mesmos gestos poucos e amargos: Ann descobre ao defender o pai da acusação de cumplicidade com o nazismo ele na realidade é um criminoso de guerra; Julia descobre ao investigar o seqüestro de um chileno que o pai e o irmão foram cúmplices das prisões e assassinatos da Operação Condor.

 

A questão central destes filmes, na realidade, não é a denúncia contra o passado em primeiro plano – não é um ajuste de contas com o pai, o General Gudari no filme de Schroeder, Lazlo no de Costa-Gavras. Não é o lamento pelo sofrimento do pai, Bronski no filme de Barzman. A questão central não é o passado que se investiga, mas o o mundo do investigador, o que passou observado de um presente intranqüilo e sem perspectivas. Não a culpa do pai, mas o sofrimento do filho – nos três exemplos citados, o sofrimento da filha: Julia em Matar a todos, Melanie em Emotional arithmetic, Ann em Music Box. Por isto mesmo, pra acentuar a questão, o filme de Esteban Schroeder faz de Julia uma personagem duplamente vítima da violência da ditadura: no passado, presa e torturada, ela sobreviveu graças à intervenção do pai e do irmão; no presente, ao investigar o seqüestro do chileno Eugenio Berríos, ela passa a receber ameaças do pai e do irmão.

 

Matar a todos, “narra una historia pasada pero interroga sobre nuestro futuro” diz o diretor Esteban Schroeder, “ y lo hace desde un testimonio de vida, el de una mujer que teme haber sido engendrada por el demonio, pero a la vez, teme por perseguirlo. Una mujer que sabe que el 'pasado es lo que más cambia' y que sabe, también, que necesita resolver su pasado para construir su futuro".

 

Este mesmo desejo de dizer que o passado está aqui ao lado, esta mesma sensação de que não se chega ao presente sem lidar adequadamente com ele, que organizam a ficção uruguaia (“la verdad duele pero cura”, diz um dos personagens de Matar a todos), estas mesmas vontades comandam Condor: trata-se de dizer que aconteceu aqui (“casi todo tiempo me tienen que volver a contarme la historia, de nuevo” diz uma das entrevistadas, Eva Grisonas, “el no saber es peor que saber”); aconteceu e o melhor é não esquecer que aconteceu aqui(“são feridas que continuam abertas”, diz outro dos entrevistados, Luiz Greengalgh).

 

No prólogo do documentário de Mader, um homem liga um gravador cassete sobre a mesa e precisa: “estamos aquí a 14 de febrero del año 2005, son la hora 17 y 15”; diz mais: “estamos con el señor Roberto Mader que es un cineasta brasilero que viene haciendo una recorrida por los países latinoamericanos para conocer de primera mano la tragedia que alguno de ellos han vivido y que han tenido que soportar la subversión terrorista” – uma breve pausa, um sorriso e dois pontos – “estamos escuchando, señor”: E então, sobre as imagens com os letreiros de apresentação, o filme começa a falar: “Nos anos 70 os militares tomaram conta da América do Sul. O pretexto era combater o avanço da esquerda. Uma onde de golpes deixou um rastro de intolerância, seqüestros, assassinatos e exílios. As ditaduras se uniram. Desrespeitaram leis e fronteiras dando origem a um dos piores exemplos de terrorismo de estado da história: a operação Condor”. Pior do que saber, só o não saber.

 

Condor, de Roberto Mader

 

Condor, de Roberto Mader

31 anos depois, de novo no Estádio Nacional: Condor de Roberto Mader

 

Noticiosos de cinema e de televisão (como a brevíssima frase de Pinochet ao informar em 11 de setembro de 1973: “las cámaras quedarán en receso hasta nueva orden. Eso es todo”), análises de jornalistas (a inglesa Jan Rocha, o norte-americano John Dinges, autor do livro Os anos do Condor) e entrevistas com algozes e vítimas. Em Santiago do Chile, por exemplo, no estádio vazio, “hacia 31 años que no volvía acá... hay muchos que no quieren venir”, um homem lembra (principalmente nas muitas pausas de sua fala para engolir a emoção em seco) o que se passou ali depois do golpe que derrubou Allende: “ahora mismo... me dio una cosa que... entré aquí... y un sentimiento de tristeza... porque habíamos miles y miles de personas... 15 mil personas... y nos torturaban, nos pegaban... ponían corrientes... las mujeres las tenían en la piscina... aquí murieron gentes...”

 

“¡Que horror!”, comenta Eva Grisonas, lembrando o que fizeram com seus pais e depois da morte deles com ela e o irmão, levados do Uruguai para o Chile e abandonados num orfanato para adoção. “Tienen que volver a contarme la historia de nuevo, y siempre la voy reelaborando, la reinventando, y por otro lado siempre olvido cosas”.

 

Contar e contar de novo é o que se propõe o filme, em direção contrária à que sugere Jarbas Passarinho ao dizer “esta página para mim foi virada”. Condor não pretende mais que manter-se sobre a página, mas aqui e ali acrescenta às entrevistas e documentos um conjunto de imagens semelhantes às reticências do chileno que 31 anos depois volta ao estádio em que esteve preso. Imagens de montanhas, imagens de rochedos a beira mar e, mais que qualquer outra, o fragmento da mensagem enviada por Harold Pinter às mães da praça de maio: “finalmente, quando chegar o dia, quando chamarem para a identificação do cadáver, quando chegar a hora de ver meu corpo, quando uma voz disser ‘nós o matamos, ele morreu, esse bastardo não resistiu à tortura. Morreu’. Quando disserem que estou definitivamente, completamente morto, não acreditem. Não acreditem. Não acreditem”. E então, o que vale não é somente o que as pessoas dizem mas também o modo de dizer do filme.

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