Fernando Meirelles
Cannes 2008: Fernando Meirelles,
Julianne Moore
Julianne Moore e
Alice Braga

Alice Braga: Ensaio sobre a cegueira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cannes 2008: de olhos vendados

 

Alem do que o filme diz por si mesmo, Ensaio sobre a cegueira passa a dizer algo mais com a apresentação como filme de abertura do Festival de Cannes de 2008: abre um diálogo com a imagem do cartaz, um rosto de mulher com óculos escuros, reforça o comentário algo irônico do cartaz ao que a muita gente que se agita em torno da Croisette quer fazer: tirar a venda dos olhos, abrir os olhos, ver como se o mundo só fizesse sentido para os olhos.

 

Cannes 61: para começar, um filme sobre a cegueira (é uma história triste, não é o tipo de filme habitualmente escolhido para dar início a uma festa de cinema, observou o diretor, Fernando Meirelles). Não exatamente um filme sobre a cegueira mas sobre o que a sabedoria popular aponta como o pior cego, o que não quer ver. Ao lado dos outros intérpretes – Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Gael Garcia Bernal, Yusuke Iseya e Yoshiro Kimura – Danny Glover lembrou na entrevista que quando ele nasceu, há sessenta anos, o população mundial era de 2,5 bilhões de pessoas e que hoje 2,5 bilhões de pessoas vivem no mundo com menos de 2 dólares por dia: "noutras palavras, estas pessoas não existem, têm uma existência invisível porque nós estamos cegos para a realidade delas".

 

A escolha de Ensaio sobre a cegueira como filme de abertura pode ser percebida logo adiante como uma bem sucedida estratégia de programação porque o filme de Meirelles e as palavras de Glover prepararam a conversa com um conjunto de filmes empenhados exatamente em discutir personagens e questões com freqüência empurradas para a margem, para uma absoluta invisibilidade.

Três macacos | Üç Maymun de Nure Bilge Ceylan

Três macacos | Üç Maymun de Nure Bilge Ceylan

 

Três macacos | Üç Maymun,  de Nury Bilge Ceylan, La mujer sin cabeza de Lucrecia Martel, Entre les murs de Laurent Cantet, O silêncio de Lorna | Le silence de Lorna de Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne, Adoração | Adoration de Atom Egoyan, Linha de passe de Walter Salles e Daniela Thomas, e mesmo a ligeira e irônica Vicky Cristina Barcelona de Woody Allen se voltam para personagens invisíveis para a sociedade ou para personagens que se recusam a ver algumas questões que saltam aos olhos.

 

A história do patrão que convence o empregado a assumir em lugar dele a responsabilidade por um atropelamento e a da mulher que atropelou alguma coisa na estrada e prefere não se certificar se matou um cachorro ou uma pessoa; a dos rebeldes estudantes franceses na periferia da grande cidade e a do estudante canadense que tenta compor uma imagem de si mesmo por meio da internet; a história dos irmãos em busca de emprego e de visibilidade na metrópole desumanizada, a da albanesa que aceita um falso casamento com um viciado em drogas para trabalhar na Bélgica e a das americanas sem saber o que desejam durante as férias em Barcelona, todas estas histórias apareceram em Cannes como um prosseguimento noutra dimensão do tema aberto em Ensaio sobre a cegueira.

 

Louis Garrel e Laura Smet: La frontière de l’Aube de Philippe Garrel

Louis Garrel e Laura Smet: La frontière de l’Aube de Philippe Garrel

 

É verdade, nem tudo no festival se resumiu a este debate ou diálogo armado de maneira mais ou menos espontânea. Outros paralelos se estabeleceram ao longo do programa e entre eles talvez os mais curiosos sejam o que se pode montar entre o filme de Philippe Garrel, La frontière de l’aube estabelece com o de Wim Wenders, The Palermo Shooting (os dois protagonistas são fotógrafos muito diferentes um do outro, os dois contam histórias entrecortadas por uma representação da morte: no filme de Garrel, a mulher que se suicidou retorna com ciúmes da nova paixão de seu ex-amante, no filme de Wenders um arqueiro que vive no futuro e dispara uma flecha contra o presente). E o que se pode montar entre La frontière de l’aube e La mujer sin cabeza de Lucrecia Martel – duas histórias de um instante de omissão e de um sentimento de culpa: a mulher atropelou alguém e não parou o carro para socorrer a vitima, o homem não atendeu ao chamado da amante que sozinha se suicidou.   

 

Daniela Thomas e Walter Salles e o prêmio de melhor atriz, para Sandra Corveloni

Linha de passe : Daniela Thomas e Walter Salles com o prêmio de melhor atriz para Sandra Corveloni / Foto de Denis dela Rocca.

Mas a questão apontada na abertura do festival pelo cartaz e pelo filme de Meirelles se destaca pelo apelo especial que uma conversa sobre a cegueira tem num espaço construído por inteiro para o olhar. Assim, imagem por si só de grande força dramática, o plano quase ao final de Linha de passe em que o motoboy tira o capacete e exige do motorista assustado “olha pra mim!” ganha quando visto no conjunto de filmes exibidos em Cannes uma força especial. Aparece então como o que de fato é, uma síntese daquela história em particular, e também como síntese do problema anunciado no filme de abertura e uma reiteração do pedido que todo e qualquer filme reunido nos diversos programas de Cannes faz ao espectador.

 

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