O piedoni deve tirar os sapatos, diz o professor. Giuseppe ainda não sabe, mas o garoto de pés grandes que entrou na escolinha de arte metendo os pés pelas mãos é seu filho Joe. Desajeitado, ele entrou na sala em que as crianças desenhavam o céu no chão e pisou numa estrela. O pequeno desenhista protestou logo: um pé enorme na estrela dele. O professor protestou em seguida, o piedoni deve tirar os sapatos. Terminada a aula, o pé grande engatinha por trás das outras crianças e sai com os sapatos do professor. Deixa os que trouxe num canto da sala e calça os sapatos do professor. Antes de ir embora, desenha num canto da grande folha de papel no chão uma lua com três olhos, dois narizes e uma boca. O professor, Giuseppe, sem se dar conta disso, ele repete o que o dono da estrela pisada acabara de dizer, ao se dirigir a Joe como piedoni, chama seu filho de Édipo – Oidípous, pés inchados, pés grandes, pés furados, o arrancado do berço e jogado fora pelo pai com pregos enfiados nos pés.
O pai sai da escola e o filho vai atrás dele. A roupa do filho é um espelho da roupa do pai. O pai tem os sapatos do filho. O filho está nos sapatos do pai. Em casa, Giuseppe com a mãe (como Édipo?), o piedoni invade o terraço para uma cena dramática. Devolve os sapatos do pai, mas não se apresenta: diz que o filho de Giuseppe morreu na véspera, drogado, abandonado pelo pai.

La Luna define Bernardo Bertolucci, pode ser visto como a história de um Édipo às avessas: “Na psicanálise, Édipo mata o pai. Aqui, Joe ressuscita o seu. É um Édipo moderno, que ama sua mãe mas ressuscita seu pai. Matar ou ressuscitar o pai é um modo de descobrir a própria identidade”. No começo do filme, a morte do pai – ou de Douglas, o pai adotivo que Joe (como Édipo?) pensava ser seu verdadeiro pai. No final, a ressurreição do pai. O de pés inchados primeiro vive a fantasia de incesto com a mãe e em seguida “encena um artifício para levar seu verdadeiro pai ao teatro de sua mãe. Ele é então, verdadeiramente, um diretor de teatro, recria a cena originária – ou, se quisermos, a primeira cena do filme, o prólogo, onde pai e mãe dançam no terraço. Ele redescobre a unidade pai/mãe. Existe na conclusão do filme uma insinuação de liberação. A mãe está ensaiando. O pai e o filho estão sentados, distantes. Não creio que Caterina e Giuseppe venham a morar juntos, viver juntos de novo. Não creio na recomposição da família. Mas Joe está compondo sua identidade. Ressuscita o pai para descobrir a própria identidade”.

 

Para entrar com pé direito no cinema de Bernardo Bertolucci nada melhor que esse filme de 1979, distribuído agora em dvd. Um melodrama (ou mel-lodrama, como o diretor prefere, numa referência ao engasgo do bebê com o mel trazido pela mãe na cena de abertura) entre a ópera e a psicanálise, La Luna, é talvez a melhor síntese dessa espécie de nó na garganta provocado pelo seu cinema: como o bebê na cena de abertura, o espectador se sente como quem engasga com mel.

 

> ver também A face ocuta da lua

> retornar ao alto da página

> retornar a Imaginações

>retornar ao Index

 

 

 

 

 

O pé na estrela, a cabeça na lua

 

<Bernardo Bertolucci, La Luna>

<<Bernardo Bertolucci, La Luna>>

La Luna, de Berbardo Bertolucci

<<Bernardo Bertolucci, La Luna>>

La Luna, de Berbardo Bertolucci

<Bernardo Bertolucci, La Luna>

<Bernardo Bertolucci, La Luna>

La Luna de Bernardo Bertolucci

 

 

 

 

 

 

 

 

escrevercinema - Voltar à Index