A pele do lobo

A cena, no trecho final de A hora do lobo (Vargtimmen, de Ingmar Bergman, 1968), dialoga com o que Buñuel fez quarenta anos antes em Un chien andalou e L’Âge d’Or: o que Alma parece nos dizer de Johan, que ele vive como num pesadelo, se materializa na imagem quando ele vê uma mulher tirar o chapéu, arrancar a pele do rosto e do crânio nu tirar os olhos para guardá-los num copo d’água – para melhor ouvir a música, ela explica.

As muitas sombras do quadro, o quase silêncio, as poucas falas sussurradas e a melodia suave de um cravo, contribuem para sublinhar o ruído fanhoso, arrastado, em primeiro plano: o barulho da pele arrancada do rosto soa como uma película de borracha esgarçada.

Arrancar a pele e os olhos da cara: Bergman convida o espectador a viver uma imagem incômoda. Incômoda como o golpe de navalha que corta o olho ao meio na primeira cena do primeiro filme de Buñuel; incômoda como o golpe de sabre que arrebenta os óculos e corta o olho da mulher na escadaria de Odessa de Eisenstein.

Quase dez anos mais tarde a imagem foi retomada por Carlos Saura, embora com contornos mais suaves (a começar pelo tom da fotografia) , em Elisa, vida minha (Elisa, vida mia, 1977). Também no trecho final do filme, a personagem tira a pele do rosto. Um gesto lembra o outro, embora sejam diferentes na aparência e no significado. Johan projeta seus pesadelos na madrugada sombria, Elisa diante do espelho projeta uma nova pele no amanhecer.

Na realidade o que os dois gestos têm de comum vai além das semelhanças e dessemelhanças da imagem: é o fato de um e outro se apresentarem como uma realidade-outra, puramente cinematográfica, que não se desmonta com a compreensão dos mecanismos usados para a construção da imagem, a máscara de terror num a máscara de beleza noutro. O que temos aqui é o que vemos – de repente, duas mulheres arrancam a pele do rosto.

 

Geradine Chaplin, Elisa, vida mia de Carlos Saura

 

A hora do lobo | Vargtimmen, de Ingmar Bergman

 

A hora do lobo | Vargtimmen, de Ingmar Bergman

 

 

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Max von Sydow, A hora do lobo | Vargtimmen de Ingmar Bergman

 

A hora do lobo | Vargtimmen, de Ingmar Bergman

 

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A hora do lobo | Vargtimmen, de Ingmar Bergman

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Max von Sydow, A hora do lobo | Vargtimmen, de Ingmar Bergman

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