Outra vez, com emoção

[Rio, 20 de janeiro de 2008]

Saoirse Ronan, Desejo e reparação de Joe Wright

Saoirse Ronan, Desejo e reparação de Joe Wright, 2007

Romola Garai, Desejo e reparação de Joe Wright

Romola Garai, Desejo e reparação de Joe Wright, 2007

 

O espaço dramático é aquele mesmo encontrado na maior parte das histórias contadas nos filmes produzidos na Inglaterra – nele, personagens que não sabem como expressar suas emoções.

 

Cecília Tallis está apaixonada por Robbie, filho da empregada que cuida da mansão de sua família, mas não sabe como dizer nem para si mesmo o que sente por ele. Furiosa com o jarro quebrado, briga com Robbie, tira quase toda a roupa e se joga n’água para buscar o pedaço que caiu no fundo do pequeno lago.

 

Robbie está apaixonado por Cecília, a filha do dono da casa em que sua mãe trabalha, mas não sabe como declarar seu amor e ensaia uma, duas, três, muitas vezes, como deve ser o bilhete em que irá se confessar – e finalmente, por engano, coloca no envelope a nota equivocada, mais explosão de desejo sexual do que a carta carinhosa e romântica que pretendia enviar.

 

Briony Tallis, irmã menor de Cecília, 13 anos, vontade de se tornar escritora quando crescer, mal acaba de terminar sua primeira peça, vê pela janela algo que não compreende entre Cecília e Robbie em frente ao lago do jardim, e mais tarde, à noite, decide compreender diferentemente o que de fato viu pela luz de sua lanterna porque não sabia como expressar o sofrimento de se sentir rejeitada.

 

Entre estes personagens, situados na Inglaterra de pouco antes pouco depois do começo da Segunda Guerra Mundial, se passa a história de Desejo e reparação (Atonement, de Joe Wright, 2007, roteiro de Christopher Hampton baseado no livro de Ian McEwan). O espaço de sempre povoado pelos personagens de sempre conduzem uma outra vez à narração elegante habitualmente encontrada nos filmes ingleses que se debruçam sobre a questão – como se a construção da narrativa fosse mais importante que os fatos narrados, ou como se na atenção dedicada à elegância da exposição cada filme procurasse dizer que, contraditoriamente, o problema está exatamente numa semelhante elegância, requinte e boa educação que no dia-a-dia da vida inglesa funcionariam como forças de repressão, como uma convenção social para impedir que as pessoas possam lidar com seus sentimentos.

 

Cenário, história e modo de contar de sempre – parece pouco, mas não é bem assim. Desejo e reparação se realiza melhor quando se mostra fiel a este parte da tradição narrativa do cinema inglês (e se realiza menos, bem menos, quando sai do tom reprimido|sussurrado para a grandiloqüência das cenas do desastre da guerra).

 

Na casa aristocrata dos Cecília a elegância da câmera não apenas constrói com eficácia o mundo dos Tallis (por exemplo: caminhando orgulhosa e altiva com Briony que avança com o manuscrito de sua primeira peça, passo firme marcado pela música que se serve do ruído de uma máquina de escrever como instrumento de percussão).

 

Porque caminha em território que conhece em detalhes, porque trata de personagens que dizem as coisas pela metade, a câmera sabe bem quando se estender e dar voltas numa cena (quando embora ela pareça dizer muito significa pouco na realidade, como a caminhada de Briony em busca da mãe para mostrar sua primeira criação literária) e quando deve secamente se recolher para dizer pela metade o que de fato importa (como o instante, já quase tarde demais, em que Cecília na biblioteca de sua mansão reconhece a paixão por Robbie) ou para dizer duas vezes a mesma coisa de pontos de vista diferentes: Cecília e Robbie no lago, vistos do alto, da janela em que se encontrava Briony, e vistos do jardim ao lado dos amantes reprimidos|surpreendidos com o escape absurdo do que recalcado: o jarro quebrado, Cecília diz que Robbie é o culpado, tira fora o vestido, joga-se n’água e quando volta à tona, numa fração de segundo, pára no ar, de pé diante de Robbie.

 

A elegância da narração situa o narrador no mesmo espaço dramático em que se desenvolve a história e simultaneamente serve como imagem crítica deste espaço – ou seja, enquanto vê a paixão reprimida de Cecilia e Robbie o espectador não perde de vista a reação de Briony por trás da janela sem saber ainda que um dia ela se jogou n’água sem saber nadar para poder confessar sua paixão pelo homem que salvou a sua vida.

 

Vanessa Redgrave, Desejo e reparação de Joe Wright

Vanessa Redgrave, Desejo e reparação de Joe Wright, 2007

 

Quando a história parece já terminada, o epílogo lhe confere nova força – não tanto pela informação nova que surge ali, não tanto pela mudança algo radical no entendimento da história que ela propõe, mas de novo pela elegância da narração. É que então, Briony, que aparece primeiro como uma menina|escritora de 13 anos e depois como uma enfermeira de 18 anos, reaparece em algum momento entre o final da década de 1980 e o começo da década de 1990, numa entrevista de televisão sobre seu último livro – ou o primeiro, porque, diz, começou a escrevê-lo durante a guerra para contar sua história a de Cecília e Robbie tal como realmente ocorreu, mas com pequenas invenções, para que pelo menos na ficção eles pudessem viver a felicidade que não conseguiram na realidade.

 

O epílogo, na verdade, não se destaca pelo fato de dar uma conclusão inesperada à história, nem mesmo pelo fato de pela boa construção de cena, dar uma outra vez ao filme o interesse que se reduzira nas cenas da guerra, mas sim pela reafirmação da tradição dramática a que pertence, pela repetição e afinação de um modelo de composição, de uma história contada e recontada de modos ligeiramente diferentes entre si certamente porque representa uma questão central na sociedade. É certamente por isso que numas poucas imagens, e nenhuma delas especialmente dramática, Vanessa Redgrave consegue conferir uma dimensão especial a sua Briony. Ela, no epílogo, propõe não apenas uma síntese de Desejo e reparação, mas uma síntese de toda a extensa família de filmes a que ele se filia. Como se trata de voltar a personagens de sempre em cenários de sempre, o trabalho aqui (o de Vanessa em particular, no controle da voz e da expressão facial, o de todos no filme de um modo geral) consiste em dar continuidade à tradição com a preocupação de superar|aprimorar os exemplos anteriores, em mostrar outra vez, com emoção, como se opor elegantemente à elegância opressora.

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