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Gago apaixonado

 

Mia Farrow, Michael Caine: Hannah e suas irmãs de Woody Allen

Mia Farrow, Michael Caine: Hannah e suas irmãs de Woody Allen

Mia Farrow, Barbara Hershey e Diane Wiest: Hannah e suas irmãs

Mia Farrow, Barbara Hershey e Diane Wiest: Hannah e suas irmãs de Woody Allen

 

Em encontros com a imprensa no Festival de Montréal em 1987, os atores Max von Sydow e Michael Caine deram versões na aparência contraditórias sobre o trabalho com Woody Allen em Hannah e suas irmãs | Hannah and Her Sisters (1986). Os dois eram convidados especiais do festival. Caine recebera o Oscar de ator coadjuvante no filme de Allen, Von Sydow se destacara no papel de August Strindberg em Oviri – The Wolf at the Door de Henning Carlsen (Dinamarca / França, 1987) e acabara de filmar Pelle o conquistador | Pelle erobreren, de Billie August (1987) que lhe daria o Oscar de melhor ator. No encontro com o ator inglês e no encontro com o ator sueco, a conversa se encaminhou para o trabalho com Woody Allen.  


Caine disse que recebeu muitas indicações mas não compreendeu logo o que o diretor explicava e voltava a explicar durante os ensaios. Só adiante percebeu: "ele queria que eu fizesse o personagem que costuma interpretar em seus filmes, aquele tipo tímido e frágil que gesticula com uma certa gagueira e quando nervoso fala como um gago. Percebi que ele queria um Woody Allen que tivesse a minha altura e a minha cara”.

Sydow disse que também não compreendeu o que Allen queria porque jamais recebeu indicação alguma. “Fui procurá-lo para saber como deveria atuar e ele me respondeu que conversaríamos mais tarde. Fui procurá-lo outras vezes e recebi sempre a mesma resposta: "conversaremos mais tarde". Finalmente chegou a hora de filmar e eu não sabia o que ele queria de meu personagem. Fiz o que estou acostumado a fazer no teatro e no cinema na Suécia. Acabamos de rodar e Allen veio falar comigo – ‘está muito bom. É isso mesmo’. Foi a única vez que falou comigo. Acho que ele queria um personagem do Bergman no filme dele”.

 

Max von Sydow, setembro de 1986, Festival des Films du Monde, Montréal

Max von Sydow, setembro de 1986, Festival des Films du Monde, Montréal

 

Imaginemos um personagem de Bergman meio gago – na fala e nos gestos – ou o seu contracampo, um personagem de Allen, qualquer dos que ele criou com a voz meio engolida de quem pensa em voz alta ou fala para dentro e os olhos bem abertos, quase fora dos óculos (uma projeção do espectador de cinema?), um personagem de Allen com a dor de dente na alma dos personagens de Bergman. Imaginemos Zelig com a altura e a cara de Michael Caine ou seu contracampo, um dos heróis de Caine (qualquer deles: o soldado Peach Carnehan de O homem que queria ser rei |The Man who would be King, de John Huston, 1975; o agente secreto Harry Palmer de Ipcress, o arquivo confidencial | The Ipcress file, de Sidney Furie, 1965) disfarçado na aparência de Allen.

Talvez se possa imaginar uma invenção cinematográfica nascida da incorporação de um gesto de von Sydow em fusão com um de Caine; talvez se possa tomar o que se observa em Hannah e suas irmãs para compreender não apenas o que o filme enquadra, mas para ver também o que se expressa fora de quadro nos filmes de Woody Allen.

Até certo ponto a estrutura de seus filmes (de todos eles, não apenas os citados acima) lembra o personagem que o realizador costuma viver na tela. O cinema de Woody Allen se encolhe às vezes numa questão que parece nem existir de tão miúda que é. Esta coisa miúda é discutida num sussurrado preto e branco ou numa montagem na aparência tão gaga quanto os personagens que ele interpreta sempre que obrigados a explicar algo simples. Talvez Allen tenha criado primeiro um personagem. Depois outros da mesma família. E finalmente uma imagem cinematográfica inspirada neles. Talvez um caminho como o de Chaplin? Como o de Keaton? Como o de Lloyd? Como o dos cômicos do cinema mudo norte-americano? Como o de todos os criadores que primeiro desenharam um tipo e depois inventaram histórias para eles e um modo de contar as histórias deles? Só o personagem de Woody engole a fala e gagueja ou também a sua câmera gagueja? O narrador do filme, quando a cena é algo mais nervosa, poderíamos dizer que ele também gagueja?

Quando, por exemplo, em A rosa púrpura do Cairo | The Purple Rose of Cairo (1985), Cecília se atrapalha ao contar para o marido que não poderá ficar em casa porque vai trabalhar como babá, Mia Farrow gagueja exatamente como Allen costuma tropeçar na fala nos momentos em que seus personagens se sentem menos à vontade na cena porque não sabem dizer o que querem dizer, porque se escondem por trás de uma mentira, porque não sabem explicar o que acontece. Cecília age como o Mickey de Hanna and Her Sisters, 1986, como o Isaac Davis de Manhattan | Manhattan (1979), como o Alvy Singer de Noivo neurótico, noiva nervosa (Annie Hall, 1977), como o Andrew de Sonhos eróticos de uma noite de verão (A Midsummer Night’s Sex Comedy, 1982). Alguma coisa nesta perda momentânea da fala, neste mais mover a boca do que propriamente falar, talvez resulte da lembrança de um dos Vogler de Bergman, a Elizabeth Vogler de Liv Ullman em Persona | Persona, (1966), ou o Albert Emmanuel Vogler de Max von Sydow em O rosto | Ansiktet (1958) – ele e ela condenados ao silêncio, proibição que vem ao mesmo tempo de dentro e de fora. Alguma coisa deste modo de mover a boca mas não falar dos personagens parece ter sido incorporado pela câmera de Allen: na imagem de seus filmes com frequência o que de fato se diz está fora de quadro.

Num certo momento a câmera se fixa num corredor e um canto de parede vazios, enquanto os personagens conversam fora da imagem – como no diálogo entre Andrew e Maxwell em A Midsummer Night’s Sex Comedy. Noutro, em Crimes e pecados | Crimes and Misdemeanors (1989), no instante especialmente dramático da história, o da discussão entre Judah e Dolores no apartamento dela, a câmera permanece imóvel no estreito corredor entre a cozinha e a sala do apartamento enquanto a mulher se move nervosa de um lado para outro, fora de quadro. Dolores, que o espectador quase não vê, está mais fortemente presente na imagem do que tudo o mais que vemos diretamente. Allen empurra o olhar para fora sem realmente deslocá-lo um só instante do centro do quadro. É assim, por exemplo, que o espectador vê, sem efetivamente ver, o assassinato de Nola Rice em Ponto final | Match point (2005). Vê tal como percebe na fala gaguejada dos personagens o que o eles não conseguem dizer com clareza.

Esta tensão que permite ouvir o que de fato não se diz e ver o que efetivamente não se mostra, estimula o espectador a trabalhar na imaginação a relação entre o que vê no cinema e o que vive fora do cinema.

 

“O encanto do imaginário em oposição ao desencanto da realidade é um tema recorrente em meu trabalho”, disse Allen ao apresentar The Purple Rose of Cairo no Festival de Cannes em maio de 1985. Fred Astaire no começo deste filme, como os Irmãos Marx no final de Hannah and her Sisters, são dois exemplos do que o diretor chama de encanto do imaginário, mundo à parte mas não de todo cortado daquele em que vive o espectador, como descobre Cecília quando Tom Baxter pula fora do filme para falar com ela na platéia. O filme então é percebido como quadro que se refere de fato ao que não está dentro dele, mas sim ao que nas histórias contadas por Allen é chamado de real world. Como repete a voz ameaçadora do Monk para Cecília, que só pensa em ir ao cinema, um dia ela vai ter de enfrentar o mundo real. 

Talvez não por acaso Allen tenha brincado com seu modo de compor a imagem na história de Dirigindo no escuro | Hollywood Ending (2002) onde interpreta um diretor de cinema que na hora de filmar, paralisado pelo medo, estende a gagueira ao olhar: perde a visão. Filma sem ver nada. É atacado por uma súbita cegueira.

Antes de Val, que se deixou cegar pela insegurança em Hollywood Ending, Allen interpretou um outro diretor de cinema, o Cliff Stern de Crimes and misdemeanors que se empenha em produzir uma fusão entre o mundo do cinema e o real world. 


Apaixonado por cinema documentário, sem trabalho, obrigado a fazer filmes de propaganda para o cunhado rico e famoso, ele se move pela certeza de que o cinema deve ver a vida como ela é. Cliff não se cansa de dizer para a sobrinha que ela deve ficar cega ao que os professores dizem na escola e permanecer de olhos abertos para o cinema.

Antes de Val e de Cliff, o Isaac Davis de Manhattan, roteirista de televisão no meio de uma confusão amorosa que o deixa ainda mais gago que de costume: sua ex-mulher escreve um livro sobre sua vida íntima, ele namora uma adolescente e se apaixona pela amante de seu melhor amigo.

Os personagens que Michael Caine e Max von Sydow interpretam em Hannah and Her Sisters e mais o que os dois atores disseram em Montreal depois da apresentação do filme, resumem com precisão Allen e seus irmãos de cinema: o Elliot de Caine, que se imagina todo razão visto no instante em que é atropelado por uma paixão pela cunhada, e o Frederick de von Sydow, o pintor solitário e melancólico, são de um certo modo desdobramentos do Mickey de Allen que se agita na história das irmãs de Hanna entre Elliot e Frederick: feito só de emoção, Mickey entra na história no instante em que se imagina com um tumor no cérebro e obrigado por isso a organizar a vida, a agir com a cabeça.


Os três – Elliot, Frederick e Mickey – são de um certo modo extensões do que Isaac Davis vive na história de Manhattan no casamento, no namoro depois do divórcio e na súbita paixão pela amante do amigo.
Toda esta irmandade, de fato, é um desdobramento do conflito central dos filmes de Woody Allen entre o encanto do cinema e a dureza do mundo de verdade, entre a razão que prende os personagens dentro deles mesmos e a paixão absurda, incontrolável, inexplicável (como a que Elliot diz sentir pela cunhada) que deixa o apaixonado (de nervoso, porque a paixão fez nele um estrago, como cantou um dia Noel Rosa) gago.

 

> ver sobre Vicky Cristina Barcelona e sobre Ponto final:
Quadro esquadro fora de quadro

> ver sobre Zelig: Exteriores

> ver sobre A rosa púrpura do Cairo: Os óculos de Woody Allen

> ver também sobre A rosa púrpura do Cairo A rosa púrpura de Berlin

> ver sobre Crimes e castigos : O oftalmologista e a miopia de Deus

 

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