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Anamaria Marinca,
4 meses, 3 semanas e dois dias

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A voz muito rouca da luz

[Rio, 26 de janeiro de 2008]

Anamaria Marinca, 4 meses, 3 semanas e 2 dias, de Cristian Mungiu

Anamaria Marinca (Otilia), 4 meses, 3 semanas e 2 dias, de Cristian Mungiu

 

No trecho final de 4 meses, 3 semanas e 2 dias (4 luni, 3 saptamîni, si 2 zile, de Cristian Mungiu, 2007) há uma cena em que, tudo quieto e em silêncio, a luz começa a falar. Uma lâmpada num canto do cenário, recita um monólogo dissonante e repetitivo.

 

Otília, de volta ao hotel, está diante da porta do quarto de Gabita. Hesita um momento antes de bater na porta, parada entre as poltronas avermelhadas no espaço entre o elevador e a porta do quarto. A câmera, meio distante, vê no teto, por trás de uma coluna, uma lâmpada fluorescente defeituosa. A luz aparece e desaparece e produz um zumbido. Nada se move em cena e o vazio de ação conduz espontaneamente o espectador para o ruído do apaga|acende|apaga da luz num canto da imagem.

 

Um detalhe como este dentro de um filme certamente passaria sem ser percebido ou seria percebido como um sinal sem importância maior que o de contribuir ao lado de outros para dar ao cenário especial dose de autenticidade. Em 4 meses, 3 semanas e 2 dias, no entanto, o blablablá rouquenho, mecânico, da lâmpada é puxado intencionalmente para primeiro plano. Tudo na cena se esfria para que a fala da luz chegue com clareza aos olhos e ouvidos do espectador. O plano começa como uma pausa, um entreato, um intervalo, ausência de ação (ausência mais fortemente percebida porque o espectador espera que a conclusão da ação que viu na imagem anterior) como um vazio para trazer a primeiro plano a fala da luz.

 

Na verdade, ao longo da narrativa, não apenas aqui, quem de verdade toma a palavra é a luz. E tomou a palavra bem assim como nesta imagem em que Otilia está parada na porta do quarto de Gabita: de modo enviesado num canto da cena, meio escondida por trás de qualquer coisa ou ação. Aqui, por um instante ação nenhuma, o que se esconde aparece, embora no fundo da cena, em primeiro plano

 

Quando Otília sai de casa do namorado para voltar ao quarto de hotel em que deixou Gabita trancada, por exemplo, na caminha nervosa e silenciosa de Otília, quem fala é a luz. E fala como quem não diz nada. É noite, a rua é pouco iluminada, a câmera caminha com Otília mas a imagem e só um vazio escuro. Só quando a personagem passa por um dos postes de luz é possível não propriamente ver mas adivinhar o seu rosto tenso. Otília caminha a passos rápidos, a luz frágil cobre um espaço reduzido, o rosto que se ilumina logo se apaga. O que se vê de fato é a tela preta, a imagem nenhuma, como se a luz ali estivesse muda ou falasse por meias palavras – as meias palavras da luz correm então como um modo de figurar as meias palavras dos personagens: todos eles falam deste mesmo modo atravessado, pela metade.

 

Laura Vasiliu e Anamaria Marinca, 4 meses, 3 semanas e 2 dias, de Cristian Mungiu

Laura Vasiliu e Anamaria Marinca, 4 meses, 3 semanas e 2 dias, de Cristian Mungiu

 

É assim também mesmo quando a luz parece se distribuir harmoniosa e ampla sobre a cena ela diz somente a metade, palavra engolida antes de se concluir: as ações jamais se mostram com clareza, tudo aparece meio torto, encoberto, indireto, fora de foco: o que está no centro do quadro e em boa luz não é necessariamente o centro do que se diz, como demonstra a imagem de abertura (talvez não lá, no instante em que aparece na tela, mas com toda a clareza quando concluída a história volta na memória): o detalhe no cinzeiro e a lenta abertura da imagem revelam quase tudo do quarto das duas estudantes, menos o essencial, a personagem que fora de quadro (Otília) concorda em fazer alguma coisa que o espectador está ainda longe de saber o que é para a que está em quadro (Gabita). E mesmo quando, o quadro já todo aberto, as duas moças em cena, tudo aparentemente visível a ação, (tirar a toalha de plástico da mesa, voltar a colocar a toalha adiante) não esclarece, não continua a conversa iniciada com a fala de Otília fora de quadro.

 

E como entra na história sem saber o que ela já começou a contar ali, no cinzeiro em primeiro plano e na voz de uma personagem que ainda não viu, o espectador se acostuma a ver tudo sob uma luz que encobre, esfumaça, traça um caminho sinuoso entre o olhar e o centro dramático da cena. No pedaço que vê o espectador acostuma-se pouco a pouco a perceber o que não está ali diretamente visível mas que, sim, está na cena: o maço de cigarros “esquecido” diante da recepcionista do hotel, Otília calada e pouco à vontade no fundo da longa e animada conversa na festa de aniversário dos pais do namorado e, exemplo mais significativo, a conversa entre Otília e Gabita com a câmera todo o tempo no rosto de Otília – são quadros que conduzem o espectador para o fora de quadro. Não é a cena que diz para o espectador o que se passa, mas a luz e o desenho do quadro que isolam um pedaço na aparência deslocado do conflito que se vive então.

 

Enquanto olha para Otilia, porque só ela está em quadro, o espectador vê Gabita. Vê a personagem que não está na imagem exatamente porque é levado a vê-la assim como ela se comporta: Gabita se esconde, mente, diz meias verdades, se move por linhas tortas, sai de quadro, empurra Otília para a frente da cena. Para mostrar Gabita assim como ela é, o filme fica e olho na amiga que se expõe, que dá a cara a ver em lugar dela – ali, no plano em que pergunta à amiga o quanto ela mentiu e por que ela mentiu, e em todo o restante da história.

Vlad Ivanov, Anamaria Marinca e Laura Vasiliu, 4 meses, 3 semanas e 2 dias

 

Romênia, final da década de 1980, aborto proibido, Gabita pede a Otília, companheira de quarto da residência de estudantes da escola politécnica, que confirme e faça o pagamento do quarto de hotel reservado para fazer o aborto. Diz que não sabe lidar com estas coisas, fazer pagamentos, confirmar reservas na portaria do hotel, que tem medo e precisa da amiga ao lado dela. Adiante, o quarto de hotel já confirmado, Gabita pede a Otília para ir ao encontro do senhor Bebe o encarregado de fazer o aborto e explica: disse para ele que elas eram irmãs, como ela era e como estava vestida – seria fácil reconhece-la.

 

Sozinhas no quarto, depois da conversa torta e da agressão direta de Bebe antes de aplicar a sonda para o aborto, Otília pergunta a Gabita por que as mentiras. Gabita ela diz que não mentiu, só não disse tudo; imaginou que apresentar a amiga como irmã iria facilitar as coisas; que sabia das exigências de Bebe; que estava com medo porque tinha mais de quatro meses de gravidez e que por isso Bebe lhe fora recomendado.

 

A imagem todo o tempo no rosto de Otília enquanto Gabita fala (num fora e tom semelhante ao do monólogo da lâmpada no espaço entre o elevador do hotel e a porta de seu quarto) compõe um diálogo (puramente visual) à parte com aquela outra em que, na festa de aniversário da mãe do namorado, quase todos na mesa de jantar em quadro, Otília observa em silêncio o vozerio dos mais velhos, mais atenta ao telefone (Gabita, que ela deixou trancada no quarto do hotel, irá telefonar para ela?), que não toca, do que no que eles dizem. Mais uma vez Otília está no centro da imagem mas o espectador vê Gabita.

 

Laura Vasiliu (Gabita), 4 meses, 3 semanas e 2 dias

Laura Vasiliu (Gabita), 4 meses, 3 semanas e 2 dias

 

Embora na maior parte do tempo fora de quadro, Gabita é o personagem central de 4 meses, 3 semanas e 2 dias porque tudo o que faz é regido pela absorção dos valores que a oprimem e a agridem (a ela, a Otilia, a todas as jovens da escola politécnica): a mentira, o faz-de-conta, a falsa moral e a nenhuma dose de humanidade dos mais velhos, dos parentes e amigos na festa de aniversário que condenam Otília por fumar na presença deles, dos convidados na festa do casamento que bebem demais e brigam, de Bebe, dos empregados do hotel, do vendedor de cigarros contrabandeados no salão de entrada do hotel.

 

Nem é preciso que ela esteja em quadro: o quadro, nas muitas vezes em que filma um personagem de costas, ou o descobre de frente num canto do espelho, ou o perde no escuro da rua, o modo de compor o quadro nos coloca diante de Gabita mesmo quando ela não está dentro dele. Fora da cena, ela continua lá, em primeiro plano, não só porque ela é a causa do que acontece, como porque (convém repetir) seu jeito é bem esse de estar como que ausente de tudo, lâmpada defeituosa.

 

Por isso mesmo, o monólogo da lâmpada enquanto Otília hesita antes de bater na porta do quarto 206, permanece como um eco na imagem que conclui secamente a narração do filme de Mungiu: as duas sozinhas no restaurante do hotel. Gabita estava com fome, descera para jantar, se servira de sobras da ceia preparada para a festa de casamento. Otília, sem o menor apetite, sentada diante dela.

 

Laura Vasiliu, Gabita, e Anamaria Marinca, Otilia: cena final de 4 meses, 3 semanas e 2 dias

Filmagem da cena final com Laura Vasiliu e Anamaria Marinca

 

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